sexta-feira, 27 de maio de 2011

Uma política contra o cretinismo

http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3969&bd=2&pg=1&lg

A falta de iodo ainda é a principal causa de retardamento mental no mundo

Por Antonio Bianco 

Já há alguns anos, um grupo do Boston Medical Center vem alertando para o fato de que mulheres grávidas da população local mais pobre apresentam deficiência alimentar de iodo! O último alerta indica que o leite de até 50% dessas mulheres pode estar deficiente em iodo. Tendo acompanhado de perto a batalha contra a deficiência de iodo na América Latina durante anos, nunca pensei que fosse reencontrar esse problema a menos de dois quilômetros do hospital onde trabalho hoje, em Boston.
Infelizmente, a falta de iodo continua sendo a principal causa de retardamento mental em todo o mundo. Esse é um problema muito antigo que está ligado ao surgimento da vida nos oceanos, há cerca de 600 milhões. A origem marítima fez com que o funcionamento da maior parte dos organismos se desenvolvesse baseado em elementos abundantes nos mares, como a água, que constitui mais da metade do organismo humano adulto. Outro elemento marítimo importante é o iodo. Pequenas quantidades desse elemento químico são necessárias para a vida da maioria dos organismos em nosso planeta. Nós, por exemplo, necessitamos da ingestão de cerca de um décimo de miligrama de iodo todos os dias. Ao se aventurarem no ambiente terrestre, os vertebrados bem sucedidos foram aqueles que conseguiram desenvolver mecanismos para se proteger da falta de água e desses outros elementos, inclusive do iodo. Nos animais vertebrados, o iodo é fundamental para a produção dos hormônios da tireóide, uma glândula localizada no pescoço, aderida à traquéia. A deficiência de hormônios da tireóide durante a gravidez e/ou nos primeiros dois a três anos de vida freqüentemente resulta em rebaixamento importante da inteligência (QI), deficiência auditiva e de crescimento, sendo que nos casos graves observa-se retardamento mental, surdez e baixa estatura. Um quadro triste e irreversível, conhecido como cretinismo.
O iodo deixa os oceanos e se concentra nas nuvens até que estas se precipitem e, através das chuvas, o iodo é espalhado sobre os continentes. O iodo pode permanecer no solo por um bom tempo ou ser rapidamente lavado pelos rios, voltando assim aos oceanos, principalmente em áreas geográficas que sofreram glaciação há milhares de anos. A partir do solo, o iodo é captado e concentrado nas plantas, nas colheitas e, portanto, nos animais que se alimentam das vegetações e pastagens, sendo então ingerido pelos seres humanos. Em função da natureza do solo e da distância dos oceanos, cerca de 2 bilhões de pessoas, incluindo 285 milhões de crianças, vivem em áreas carentes de iodo.
Nessas regiões, todas as formas de vida são deficientes em iodo, inclusive as plantas, os animais e os seres humanos. Dentro de um certo limite, essa deficiência pode ser compensada com um aumento do tamanho da glândula tireóide, levando ao bócio, o qual está presente de forma endêmica em muitas vilas do interior brasileiro, da África e da Ásia. Entretanto, em extensas áreas geográficas do planeta, a falta de iodo é intensa e nem mesmo o bócio é suficiente para manter o funcionamento normal da tireóide. A solução encontrada para essas áreas é a adição de iodo ao sal de cozinha, a um custo anual aproximado de 10 centavos de real por habitante. Em quase todo o mundo essa solução é a que apresenta a melhor relação custo/benefício, mas sua implementação pode ser problemática. Em muitos países, como no caso do Brasil, a iodação do sal é obrigatória por lei e regulamentada através de portarias do Ministério da Saúde. Entretanto, como quase tudo em saúde pública, regulamentação apenas não é suficiente, cabendo à sociedade e às autoridades governamentais a fiscalização das empresas salineiras e a monitoração clínica da população em risco, a qual é feita tipicamente através da medida de iodo na urina de crianças em idade escolar.
Apesar de existir solução para o problema e dos esforços da Organização Mundial da Saúde, a deficiência de iodo ainda causa milhares de vítimas em todo o mundo, inclusive na Austrália, Rússia, paises da África e da Europa. No Brasil, a história recente da nutrição do iodo (dos últimos 20 anos) é cheia de altos e baixos e, por isso, preocupa bastante. Compreensivelmente, tanto a fiscalização das usinas de sal quanto a monitoração das crianças num país das dimensões do Brasil oferecem enormes desafios logísticos. A boa noticia é que, parece existir no Ministério da Saúde, nos últimos anos, pessoas que estão cientes da importância do problema e com quem se pode dialogar facilmente. De acordo com Laura Misk de Faria Brant, técnica da Gerência de Inspeção e Controle de Riscos de Alimentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o monitoramento do sal tem sido uma ação sistemática no âmbito da vigilância sanitária desde 1999, quando foi instituído um programa nacional de inspeção sanitária envolvendo a totalidade das indústrias nacionais. Nos quatro anos em que o programa esteve vigente, 198 empresas foram inspecionadas, sendo que os resultados mostraram uma tendência de adequação do produto à legislação vigente. Em 1999, 27% das amostras de sal analisadas apresentaram teor de iodo abaixo do exigido; no período de 2000 a 2003, esse percentual sofreu uma redução progressiva para 29, 13, 11 e 6%. Além disso, hoje existe uma Comissão Interinstitucional para Prevenção e Controle dos Distúrbios por Deficiência de Iodo que, de acordo com Juliana Amorim Ubarana, da Equipe de Micronutrientes da Coordenação-Geral da Política de Alimentação e Nutrição, está planejando um estudo nacional de milhares de escolares para o próximo ano.
Esse otimismo recente também é compartilhado pelo Dr. Eduardo Pretel, incansável médico peruano que é Coordenador Regional para América do International Council for the Control of Iodine Deficiency Disorders (ICCIDD), com quem conversei recentemente. Entretanto, a meu ver, tendo em vista a gravidade dos distúrbios causados pela carência de iodo, os esforços do governo federal estão muito aquém do que seria desejável. Relativamente poucas amostras de sal são analisadas periodicamente, tendo em vista os milhares de toneladas produzidas anualmente.
Além disso, o Brasil dispõe somente de resultados referentes a quatro estudos populacionais de âmbito nacional (1955, 1975, 1994 e 2000), sendo que este último, o projeto Thyromobil, contou com o apoio de várias entidades nacionais e latino-americanas, mas foi financiado pela Merck, um laboratório farmacêutico europeu. Embora louvável, o estudo produziu resultados que devem ser interpretados com muita cautela, tendo em vista o pequeno número de municípios visitados. O bom seria que o Governo brasileiro abandonasse a timidez nessa área e tomasse a frente dessas iniciativas tão importantes para a saúde das crianças.
Um aspecto relevante é o da continuidade das iniciativas governamentais nessa área. O monitoramento das usinas salineiras e o acompanhamento das crianças devem ser contínuos, independentemente de partidos políticos aos quais a administração federal está ligada. O fato de tudo estar bem neste ano não significa que podemos baixar a guarda no próximo ano. Por exemplo, foi por descuido no monitoramento que países como a Austrália, a Guatemala e o Marrocos entraram na “lista negra” da Organização Mundial da Saúde (OMS). A situação em Boston mostra que mesmo nos EUA isso pode acontecer e, na verdade, já está acontecendo nas populações de maior risco (mulheres grávidas) devido à diminuição da ingestão nacional de iodo observada nos últimos 30 anos (nos EUA a iodação do sal é voluntária).
Entretanto, por incrível que pareça, nos EUA a diminuição da ingestão de iodo pode vir a acionar outros alarmes em Washington. Acidentes em usinas nucleares, assim como artefatos nucleares potencialmente utilizáveis por grupos terroristas, liberam grandes quantidades de iodo radioativo. Em condições normais, esse iodo radioativo também se concentra na tireóide e, mais tarde pode resultar em câncer da glândula. Uma vez que a deficiência de iodo faz com que a tireóide aumente muito sua capacidade de captar e concentrar esse elemento (bócio), um acidente nuclear dessa natureza teria proporções muito mais devastadoras em regiões carentes em iodo, como foi o caso em Chernobyl na Ucrânia. Em 1986, devido à liberação de iodo radioativo para a atmosfera, cerca de 50 mil pessoas, muitas das quais crianças, desenvolveram ou irão desenvolver câncer de tireóide. Nesse sentido, a Sociedade Americana de Tireóide recomenda à população que vive dentro de um raio de 100 quilômetros de uma usina nuclear – e muitas dezenas de milhões de americanos vivem – que tenha em casa pílulas contendo iodo as quais devem ser ingeridas imediatamente no caso de acidente nuclear, com o objetivo de minimizar a contaminação tireoideana com iodo radioativo.
Uma das maiores dificuldades na sensibilização das autoridades – e mesmo dos diferentes segmentos da sociedade sobre a importância da nutrição do iodo – é a falta de sintomas ou sinais óbvios associados à carência desse elemento. Em outras palavras, dificilmente alguém vai ficar gravemente doente ou morrer em função da falta de iodo. Na maior parte dos casos ocorre uma diminuição de 10-20 pontos no QI, cuja média na população geral é aproximadamente 100, e um aumento equivalente no limiar auditivo. Muita determinação é necessária no combate a esse mal tão silencioso, principalmente em países pobres, nos quais a população tem problemas que parecem ser mais imediatos, como a fome e o saneamento básico.

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