segunda-feira, 13 de junho de 2011

Carboidratos versus Gorduras. Quem é o grande vilão da saúde na alimentação? Magro ou Obeso? Quem vive mais?


Berenice C. Wilke

A alimentação adequada está diretamente vinculada à saúde. Embora essa frase seja absolutamente correta, não existe até o momento uma única dieta que sirva indistintamente a todos os indivíduos. O que se pode afirmar é que a obesidade, as doenças degenerativas como o câncer, diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e artrites entre outras estão associadas à má alimentação.
Durante muitos anos, os alimento ricos em gordura, foram os grandes vilões da saúde. Vários organismos internacionais como: “FDA” em 1982, o "U.S. Department of Health and Human Services” em 1988, o “American Heart Association” em 1996 e o “American Diabetes Association” em 1997, propuseram uma diminuição do teor de gordura na dieta embora as evidências epidemiológicas disponíveis não tivessem concluído que o teor de gordura da dieta americana, daquela época, fosse o responsável pelos casos de obesidade encontrados nos USA.
Em 1982, o FDA criou a Pirâmide Alimentar, que propunha uma dieta pobre em gorduras. Essa recomendação foi apoiada por diversas instituições e conseguiu modificar o hábito alimentar nos USA. Mas, para surpresa dessas instituições, o resultado obtido ao longo dos anos foi completamente diferente do esperado: houve um aumento violento da obesidade e das doenças a ela associadas. Em 2004, segundo dados do FDA, 64% dos americanos adultos estavam acima do peso, 30% eram obesos. Das crianças e adolescentes, entre 6-19 anos, 15% estavam acima do peso. Ocorreram 300.000 mortes no ano devidas a obesidade a um custo de $117 bilhões de dollares/ano. As estatísticas dos USA mostram um aumento impressionante nos casos de obesidade mórbida. Essa escalada nas estatísticas das doenças nos faz refletir sobre as mudanças nutricionais, que estão associadas à diminuição da gordura na dieta.
Estudos mais recentes têm concluído que não são as gorduras da alimentação as grandes responsáveis pela epidemia de obesidade e doenças associadas como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares que assolam os USA. Os verdadeiros responsáveis parecem ser as elevadas taxas de carboidrato das dietas atuais.
A importância do teor de colesterol na alimentação, como fator de risco no aumento da incidência de doenças cardiovasculares, foi por muito tempo uma verdade inquestionável. Atualmente, alguns pesquisadores afirmam que o alto teor de colesterol na dieta não aumenta o poder aterogênico do LDL-colesterol, nem afeta a relação HDL/LDL, que são fatores importantes no desenvolvimento da doença cardiovascular. Atualmente, muitos cientistas têm afirmado que não existem evidências sólidas de que o teor de colesterol na dieta influencie na incidência das doenças cardiovasculares. O ovo que, por muitos anos, foi considerado um alimento que deveria ser utilizado com moderação devido ao seu alto teor de colesterol foi recentemente absolvido e deixou de ser considerado um alimento que aumenta o risco de doença cardiovascular. De 1988 a 1994, um estudo acompanhou os efeitos do consumo de ovos e suas conseqüências na saúde de 2738 pessoas e concluiu que o consumo do ovo não aumenta as taxas de colesterol no sangue e é um fator importante no aporte de nutrientes essenciais a saúde.
A gordura animal que por muitos anos foi considerada como fator de risco para diversos tipos de câncer tem sido absolvida em estudos mais recentes: pesquisadores ligados a Universidade de Havard acompanharam 88.647 mulheres por 18 anos. Neste período, 4107 casos de câncer de mama foram diagnosticados e não houve relação entre o aparecimento do câncer de mama com o consumo de carne vermelha ou peixe.
Enquanto o teor de gordura na dieta americana, em relação ao total de energia, passou de 42% em 1960 a 34% em 2000, o teor de açúcar na alimentação que em 1928 era de 6kg/ano passou a 59kg/ano em 1975, e a 69kg/ano em 1990. Sérias evidências epidemiológicas têm responsabilizado o aumento de carboidratos na alimentação como o principal responsável pelo aumento da obesidade, do câncer, das doenças cardiovasculares dos distúrbios de insulina incluindo o diabetes de tipo II. Dos carboidratos, os de alto índice glicêmico são os que mais afetam a saúde. O índice glicêmico é uma avaliação da velocidade com a qual, após ser ingerido, um alimento libera insulina. Quanto mais rápida e maior a liberação de insulina, maior o índice glicêmico.
Um estudo realizado por pesquisadores de Harvard, publicado no “American Journal of Clinical Nutrition” em 2000, acompanhou por 10 anos 75.521 mulheres de 38–63 anos. Neste período, ocorreram 761 casos de doença cardiovascular. Os autores verificaram que o “Índice Glicêmico” dos alimentos estava diretamente associado ao risco de doença cardiovascular após ajuste para outros fatores de risco como idade, cigarro, ingestão total de energia e outros riscos conhecidos para esta patologia. Este estudo concluiu que a dieta, com baixa gordura e alto índice de carboidratos, recomendada pelo governo Americano não é adequadapara a prevenção de doenças cardiovasculares e pode aumentar o risco dessas doenças, em indivíduos com intolerância a glicose e resistência a insulina. Esse resultado foi corroborado pelo estudo que avaliou as artérias coronárias de 235 mulheres, na pós menopausa, por angiografia antes e após 3 anos de mudanças nutricionais. Os resultados foram surpreendentes: as pessoas com maior ingestão de gordura saturada tiveram menor progressão da aterosclerose coronariana, ao contrário das pessoas que se alimentavam com mais carboidratos, principalmente os de alto índice glicêmico, que tiveram suas artérias com um grau de obstrução maior. A gordura poliinsaturada também contribuiu para a progressão da aterosclerose coronariana. As taxas de gordura monoinsaturadas, e o total de gordura na dieta, não afetaram a progressão da aterosclerose.
Em relação ao diabetes de tipo II, os estudos apontam para o consumo de carboidratos refinados como sendo o grande responsável por essa epidemia que assola os USA. As fibras tem um efeito protetor, enquanto que o consumo de proteínas e gorduras não colabora para o aumento dos casos de diabetes de tipo II.
Em 2004, uma meta análise realizada pela University of Missouri-Kansas City, USA, concluiu que o excesso de carboidratos de alto índice glicêmico na dieta, propicia o aumento da resistência a insulina, que tem sido incriminado como o principal fator responsável pelo aparecimento de obesidade central, diabetes, hipertensão arterial e doença cardiovascular.
O aumento dos carboidratos na dieta tem sido culpados também pelo aumento das taxas de câncer, uma vez que a insulina e o IgF I auxiliam no crescimento e na proliferação tumoral, e ambos estão aumentados nas dietas ricas em carboidratos. Recentemente, um estudo avaliou a dieta de 1204 homens com câncer de próstata em relação a 1352 controles saudáveis de mesma faixa etária. Esse estudo concluiu por uma forte correlação entre câncer de próstata com a quantidade de carboidratos na dieta, principalmente com os de alto Índice Glicêmico.
Mesmo a importância da obesidade, como fator importante nas taxas de morbidade e mortalidade, está sendo questionada. A avaliação das taxas de mortalidade nos USA nos últimos 40 anos, feita através dos estudos populacionais do “National Health and Nutrition Examination Survey “ (NHANES), apresentou resultados surpreendentes sobre a influência da obesidade, avaliada pelo “Índice de Massa Corporal” (IMC): as pessoas com peso normal ou levemente aumentado (sobrepeso) vivem mais que as pessoas magras e do que as obesas. Nos últimos 40 anos, a influência da obesidade nos fatores de risco de doenças cardiovasculares, como a hipertensão arterial e as taxas altas de colesterol, tem diminuído. A única exceção é o diabetes de tipo II, que é mais freqüente nos obesos e é um grande fator de risco cardiovascular. Surpreendentemente, pouco se tem falado na influência do baixo peso no aumento das taxas de mortalidade nos USA, que foi comprovada em todas as idades nos estudos feitos pelo “NHANES” nos últimos 40 anos. Mais surpreendente ainda é a pouca importância que se tem dado aos estudos, feitos pelos centros de pesquisa mais sérios do mundo, que têm diminuído a importância das gorduras alimentares na dieta como fator gerador de doenças e morte e enfatizado os efeitos nocivos dos carboidrato.

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