sexta-feira, 10 de junho de 2011

Como o seu estilo de vida pode afetar seus descendentes

Geneticistas investigam como poluição, estresse e traumas físicos afetam o corpo e de que forma isso é repassado a outras gerações

The New York Times*

DNA: estilo de vida levado hoje pode afetar gerações futuras
Uma nova direção foi dada ao debate clássico sobre se a forma como uma criança é criada pode alterar a natureza genética dela e de seus descendentes.

Pesquisadores da epigenética, um campo de genética, investigam como fatores ambientais – como poluição, estresse e traumas físicos – podem afetar a maneira como o código genético de uma pessoa é expresso através do desenvolvimento físico e emocional dela.
Veja: O mapa dos genes
“Muitas décadas atrás, víamos os genes como um circuito planejado para o desenvolvimento e funcionamento do corpo”, disse Steven Dowshen, editor-chefe do periódico KidsHealth, publicado pelo Nemours Center for Children’s Health Media, e endocrinologista pediatra do Hospital Infantil Alfred I. duPont Hospital, de Delaware.
“Este ainda é o caso. Entretanto, até conhecermos melhor o conceito de epigenética, não conseguíamos entender como fatores ambientais podem alterar a forma como estes genes funcionam”.
Médicos estudiosos da epigenética também encontraram evidências de que o ambiente onde vive determinado indivíduo pode afetar a saúde de seus descendentes, com eventos de hoje refletindo em décadas futuras de sua árvore genealógica.
O termo “epigenética” nos ajuda a compreender o conceito, já que o prefixo grego “epi” quer dizer “sobre” ou “acima”. Pesquisadores constataram que fatores ambientais basicamente podem acionar um comando de “liga” e “desliga” na genética de um indivíduo, afetando não somente o desenvolvimento do mesmo mais também a forma como a genética é transmitida através do óvulo ou do sêmen.
“Os mecanismos da epigenética não alteram a estrutura do DNA, mas alteram a molécula do DNA de forma a modificar o volume de dados biológicos que serão transmitidos pelo gene”, explicou Rachel Yehuda, professora de psiquiatria e neurobiologia e diretora da divisão de estudos do estresse traumático da Escola de Medicina Mount Sinai, de Nova York.
“Imagine que você está escutando uma música agradável e alguém abaixa totalmente o volume. A música continua tocando, mas não pode ser ouvida. Ou ainda você pode amplificar a música”.
Veja o infográfico: Por dentro do genoma humano
Evidências da influência da epigenética na saúde e desenvolvimento do ser humano incluem estudos que revelaram:
Diferenças hormonais em crianças nascidas de mães que passaram por trauma físico ou emocional extremo. As diferenças tornam as crianças mais suscetíveis a transtornos de humor – como ansiedade e depressão. Segundo Yehuda, mudanças foram observadas na segunda e terceira geração de sobreviventes do Holocausto, assim como nos filhos de mulheres que se encontravam grávidas durante o ataque às Torres Gêmeas e foram evacuadas do prédio.
Longevidade estendida em pessoas cujos avôs sofreram de desnutrição ou inanição na infância. Downshen diz que o dado vem de um importante estudo sueco que revelou que crianças que cresceram em anos de colheita ruim originaram netos que viveram mais tempo do que crianças que tiveram acesso à alimentação abundante durante seus anos de formação.
Longevidade está nos genes
Efeitos de tais comportamentos, como fumar ou comer em excesso, nos descendentes. Segundo Downshen, tais comportamentos podem predispor os filhos de um indivíduo a doenças sistêmicas, dentre elas o diabetes e a obesidade.
Entretanto, os efeitos da epigenética não são necessariamente geracionais. Yehuda cita evidências de que o trauma e o estresse podem afetar a saúde psicológica de um indivíduo ao remexer na genética que regula a química corporal.
“Acreditamos que a epigenética pode ser muito informativa ao nos ajudar a compreender porque eventos ambientais, como o trauma, podem ser tão transformadores. Quando uma pessoa passa por determinada situação que funciona como um divisor de água em sua vida, ela se diz modificada pela situação. Qual é o significado disso? A epigenética pode nos ajudar a explicá-lo”, disse ela.
Os benefícios médicos de uma visão epigenética da saúde e do desenvolvimento humano não é uma noção de promessas de recompensas em um futuro remoto. Médicos já estão se utilizando desta visão para tratar de pacientes.
“Provavelmente já estamos usando a epigenética, por exemplo, ao prescrever o ácido fólico às gestantes para prevenir defeitos no tubo neural embrionário que causam spina bífida”, diz Dowshen. O ácido fólico influencia na forma como o DNA da mulher é transmitido a seus filhos, reduzindo as chances do bebê desenvolver tal defeito de nascença devastador.
Ele complementou que a epigenética também já levou médicos a encorajar gestantes a seguirem uma alimentação saudável, evitar o álcool e cigarros e eliminar ao máximo o estresse no ambiente em que vivem.
Segundo Dowshen e Yehuda, no futuro, resultados de estudos de epigenética poderão revelar novas formas de tratar a depressão, o câncer e o outras doenças por meio da manipulação genética. Dowshen diz que pessoas com histórico familiar de câncer possivelmente poderão evitar o desenvolvimento da doença com tratamentos de epigenética que inibem a expressão de genes causadores do câncer. A manipulação destes genes pode mesmo um dia levar à cura do câncer.
Enquanto isso, especialistas em epigenética dizem que as pessoas de hoje deveriam compreender que o estilo de vida que seguem irá afetar não somente sua própria saúde mas provavelmente terá um impacto também em seus filhos e netos.
Dowshen diz: “É muito provável que fatores ambientais, como alimentação saudável e atividades físicas, influenciem não somente no próprio indivíduo, mas em várias gerações dele originadas”.

* Por Dennis Thompson

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