sábado, 25 de junho de 2011

Mudanças no comportamento alimentar


Os últimos cinqüenta anos têm marcado substancialmente a vida alimentar das pessoas em todo o mundo. Qualquer um com mais de cinqüenta anos pode avaliar as diferenças no comportamento alimentar entre a nossa geração e a dos nossos filhos e netos. Nossas refeições eram muito bem definidas, comíamos sempre à mesa os alimentos preparados em casa, caminhávamos até a escola, brincávamos de correr em horas vagas, dormíamos cedo, fazíamos lanches muito pequenos e nos finais de semana, tínhamos no máximo refrigerantes em uma refeição e bolo no lanche da tarde. Quando observamos as famílias, nos dias de hoje, podemos notar uma ampla mudança de comportamento, com influências marcantes nas relações familiares e na alimentação, capazes de marcar uma geração de pessoas com grande propensão à obesidade.



Somos atualmente mais de 1,6 milhões de pessoas com sobrepeso em todo o mundo, de acordo com o Dr. Barry Popkin, professor de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Carolina do Norte nos Estados Unidos. De acordo com Popkin, esse número assustador já ultrapassou há muito tempo os 800 milhões de desnutridos espalhados pelo mundo, fazendo da obesidade uma pandemia, responsável direta ou indiretamente pela maior taxa de mortalidade imposta por qualquer fator de risco existente.



As grandes mudanças absorvidas pela humanidade, a partir da Segunda Guerra Mundial, vêm sendo estudadas pelo professor americano, que descreve com propriedade em seu livro The World is Fat, algumas delas, dando-nos uma contribuição valiosa de alguns pontos de partida para que possamos retomar um caminho contrário a esse que estamos trilhando, por ele ser arriscado, em relação a todas as doenças crônicas relacionadas à obesidade.



Uma dieta baseada em lanches



Com a crescente industrialização dos alimentos, a maior participação da mulher no mercado de trabalho, o aumento da carga horária nas empresas com indefinição de horários para as refeições e a expansão das redes de fast food, as refeições sofreram uma completa descaracterização. Passamos a fazer lanches, ao invés de almoçar e jantar, muitas vezes, esses lanches são mais calóricos e ricos em gorduras do que uma refeição balanceada. Isso vale para as famílias de todas as partes do mundo, do ocidente ao oriente.



A alimentação sofreu a mais deletéria globalização. Passou a ser rica em gorduras, sem micronutrientes ou fibras, rica em carboidratos refinados e sal, muito mais palatável do que frutas, verduras e legumes. Além de tudo isso, essa refeição moderna e advinda dos supermercados é muito mais frugal, ou seja, causa saciedade muito curta, de modo que a sensação de fome ocorre muito mais precocemente, dado à falta de resíduos e à rápida absorção dos seus componentes.



A saída para esse impasse é a organização das refeições, com um modelo alimentar que se imponha pelo menos uma refeição diária balanceada, nos moldes do nosso arroz com feijão, associada à dois lanches maiores, que substituiriam as outras duas refeições. Esses lanches devem sempre priorizar carboidratos e pães integrais, carnes ou embutidos magros e não abrir mão de alimentos naturais, como uma fruta no café da manhã e saladas, acompanhando o segundo lanche.



Porções "super size"



Nos últimos quinze anos, o tamanho das porções de refrigerantes, pipocas, batatas fritas e mesmo dos hamburgueres aumentou assustadoramente. Servem-se baldes de pipocas, copos que cabem litros de refrigerantes, sanduíches astronômicos e pizzas gigantes, com o apelo de serem mais baratos. Além disso, agrupam-se alimentos muito calóricos como batatas fritas, sanduíches, refrigerantes e sorvetes em promoções que, individualizadas, sairiam mais caras, induzindo ao maior consumo desses alimentos. Com as grandes porções desses alimentos, compramos mais calorias por unidade de moeda de qualquer país e acabamos erroneamente por achar isso vantajoso, compramos muito mais do que comeríamos e comemos muito mais do que deveríamos.



A saída para essa armadilha é entender que não há vantagens nessas escolhas. A estratégia é fugir das promoções combinadas de alimentos e questionar sempre os malefícios dos mesmos, principalmente agrupados ou em grandes porções. Procurar alternativas a esses grandes lanches e "ofertas mirabolantes" é uma tarefa de todos. Nas cidades brasileiras, os restaurantes por quilo ainda são a melhor saída para esses alimentos. Neles, escolhemos o que gostamos e pagamos pelo que comemos. Mais justo e confiável.



A desorganização alimentar dos finais de semana



Outra grande diferença embutida em nossa alimentação nas últimas décadas é a grande desorganização dos finais de semana. São grandes quantidades de alimentos e bebidas ingeridos todo sábado e domingo, ou o que é ainda pior, sexta, sábado e domingo. Sim, porque para muitos, sexta feira já faz parte do final de semana. Começa com um happy hour na sexta e acaba com uma super pizza no domingo à noite. Nesses três dias, muitas vezes, as pessoas acabam por comprometer todo o benefício da rotina alimentar da semana. Tudo isso com a alegação de que precisam descansar ou relaxar, como se para isso precisassem causar tamanha desorganização. Outras vezes, o lazer é confundido com todas as refeições fora de casa, começando por um café da manhã na padaria, almoço num rodízio de japonês e o jantar numa cantina com uma lasanha a bolonhesa. Sem se esquecer da sobremesa e do vinho, é claro.



A saída é se permitir uma refeição fora do trivial, com direito a uma bebida alcoólica para os apreciadores e uma sobremesa. Além disso, o final de semana é uma ótima opção para um lazer ativo, caminhadas, passeios em lugares abertos como os parques e até sair para dançar. No mais, a alimentação deve ser versátil e bem preparada, com a vantagem de que nos finais de semana ela pode ser compartilhada com toda a família.



As cozinhas de enfeite



Nossas cozinhas hoje são modernas, bem decoradas, com eletrodomésticos de última geração... Temos toda a linha gourmet de panelas e utensílios... Entretanto, não vemos nenhum indício de que ali se prepara algum alimento. Nem mesmo um cafezinho, pois já temos as máquinas de café expresso nas empresas. Tudo se compra pronto, pede-se pelos "deliveries" e muitas famílias fazem todas as refeições nos restaurantes. Nem por um momento as pessoas questionam o que estão comendo fora de casa. Tratam-se de alimentos muito mais salgados, gordurosos e calóricos e, algumas vezes, de higienização duvidosa.



Aprender a cozinhar. Eis uma atitude inteligente, moderna e revolucionária no século XXI. Apesar de prática, a atitude de abrir latas, dissolver "shakes", diluir sopões e comer os mesmos lanches, todas as noites, tem nos deixado insatisfeitos com a monotonia do que comemos e elevado a ocorrência de obesidade a cifras alarmantes. As evidências científicas têm mostrado que as cápsulas vitamínicas não funcionam como comer frutas e verduras e precisamos entender que as crianças precisam da chance de formar vínculos com alimentos saudáveis, antes de serem seduzidas pelo sabor dos alimentos industrializados. Evoluímos com a liberdade que alcançamos em todas as esferas e dividimos as tarefas domésticas até o ponto dos homens também prepararem o jantar e das crianças ajudarem na cozinha e darem palpites no cardápio. Preparar refeições saudáveis passou a ser uma tarefa de todos. Podemos realizá-la de maneira prazerosa e criativa, desde que entendamos que os maiores beneficiados seremos nós.

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