sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fitoterapia e saúde pública


* Prof. Ulysses Albuquerque

O mercado de fitoterápicos, em crescente expansão, movimenta hoje no mundo bilhões de dólares. Estimou-se que em 94, na Europa, a venda de produtos a base de plantas medicinais alcançou a singela? cifra de US$ 6 bilhões.
Esse avanço e o crescente interesse têm varias justificativas, sendo que uma delas é o desencanto gerado pelos medicamentos de síntese que foram proclamados, nas ultimas décadas, como exemplos da revolução da indústria farmacêutica.
Paralelamente ao incremento da produção desses medicamentos, vieram os indesejáveis efeitos colaterais, as falsificações e os altos custos que impediram o acesso de grande parte da população a esses fármacos.
Nesse cenário propício, a indústria de fitoterápicos ganhou espaço. A população mundial iniciou uma verdadeira cruzada de retorno as origens, buscando nas plantas medicinais alternativas, sem dúvida, mais acessíveis e substitutos para os medicamentos tradicionais.

Apesar da comprovada eficácia de muitas plantas medicinais, que já apresentam estudos sérios sobre sua atividade e toxicidade, a classe médica e ainda pouco sensível com a utilização desses recursos.
O momento atual exige serias reflexões sobre os caminhos futuros a percorrer, já deixando evidente a necessidade de um maior envolvimento dos profissionais de saúde.
Não se pode mais falar que os fitoterápicos são medicamentos de baixo custo, visto que, muitas vezes, o tratamento completo supera o valor dos custos com os fármacos de síntese.
Outro engano é crer que é melhor pagar mais caro pela vantagem de adquirir um remédio que não produzira efeitos colaterais e que é igualmente eficiente. Na verdade, um número expressivo dos fitoterápicos comercializados não sofreu estudos de toxicidade e de comprovação da atividade biológica atribuída.
Há, ainda, fitoterápicos vendidos como alimentos ou suplementos dietéticos, o que agrava a questao. Uma grande parte dos fitoterápicos não dispõe de autorização da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para serem vendidos.
Até outubro de 2000, a ANVISA recebeu a solicitação de registro de 619 formulas multiplantas (medicamentos compostos por mais de uma planta). E ainda vem uma questao mais grave: a do controle de qualidade, pois também se encontram falsificações e adulterações nesse campo.
Paralelamente a tudo isso, podemos evocar questões pouco comentadas. Formulas fitoterápicas amplamente comercializadas, algumas tradicionais, tem em suas composições plantas ameaçadas de extinção!
Imaginem que a produção de um medicamento requer grande quantidade de matéria-prima e varias plantas são obtidas unicamente a partir de coletas na natureza. Alguns laboratórios nacionais já estão sensibilizados para essa questao, investindo em conservação e cultivo.
Em função disso, em setembro deste ano, realizou-se em Brasília1ª Reunião Técnica sobre Recursos Genéticos de Plantas Medicinais e Aromáticas: Estratégia para conservação e manejo sustentável. Na ocasião, reuniram-se pesquisadores de varias regiões do país, que elegeram prioridades de estudos para plantas importantes.
Uma evidência de que a população não está orientada sobre os problemas apontados são os casos recentes, veiculados pela mídia, de intoxicações com produtos fitoterápicos. Ha, ainda, a crença generalizada de que?sendo natural não faz mal.
Esse cenário exige atenção imediata de autoridades e cientificas do país. Sem sombra de duvidas, os profissionais de saúde precisam estar vinculados a esse processo, no qual podem atuar como legítimos mediadores.
A pesquisa com plantas medicinais deixa hoje de ser uma questão puramente científica para assumir também uma dimensão política e econômica. O uso de medicamentos feitos com extratos de plantas é uma realidade que não pode ser ignorada e que deve ser utilizada em beneficio da população, bem como incorporado, principalmente, a programas de assistência primaria à saúde.
A orientação sobre os riscos da automedicação precisa ser amplamente divulgada e profissionais de saúde devem ser melhor preparados. Temas relativos à saúde são muito populares, ocupando os meios de comunicação de massa e, com isso, muitas informações inconsistentes são transmitidas.
O médico precisa estar informado para prescrever corretamente e orientar seu paciente. Suas escolhas devem ser realizadas com base em informações seguras sobre as indicações do medicamento, contra-indicações, efeitos colaterais, interações medicamentosas, pois só? o fato da utilização do medicamento estar pautada por usos tradicionais  não autoriza a sua indicação, com segurança e eficácia.
No momento atual, são colocadas questões correlatas como patentes, biodiversidade e saúde coletiva, exigindo um posicionamento equilibrado e um forte compromisso dos atores sociais para gerar bem-estar e melhor qualidade de vida a população.
Além disso, é preciso o urgente reconhecimento dos profissionais de saúde de que a fitoterapia não pode ser mais tratada como bruxaria e, por isso mesmo, condenada a fogueira da ignorância que consome milhões de inocentes.

* Prof. Ulysses Albuquerque: O autor é professor da UFRPE e da FFPG e pesquisador do Gemplam (Grupo de Estudo Multidisciplinar em Plantas Medicinais/UFPE).

Artigo publicado no Jornal do Commercio, do Recife




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