segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sons e instrumentos agem de forma terapêutica em pacientes

Por meio da vivência musical, pessoas encontram auxílio durante o tratamento de diversas doenças
Ainda do lado de fora de uma das salas do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza, é possível ouvir o som de dezenas de instrumentos que, conduzidos por pacientes, familiares e uma psicóloga, dão o tom à atividade de musicoterapia. Liderados por duas psicólogas e uma musicista, durante um dia na semana, cerca de 30 pacientes têm a oportunidade de estar em contato com instrumentos musicais. São pandeiros, sanfonas, colheres, chocalhos e tambores que se unem às melodias e colaboram para o bem-estar dos pacientes do hospital.
Durante as aulas, os pacientes têm a oportunidade de cantam e tocar Foto: Alex Costa
Atualmente, ouvir música não está mais associado apenas à diversão, pois as melodias também têm sido utilizadas como terapia, sendo um remédio tão eficaz quanto os vendidos nas farmácias, contribuindo no tratamento de problemas físicos, mentais e emocionais de diversas pessoas. A musicoterapia, como é conhecido o tratamento por meio da música, é a utilização do som e seus elementos na promoção da comunicação, relação, aprendizagem, mobilização e expressão dos pacientes.
Tratamento
A técnica, conforme explica a musicoterapeuta , Leomara Craveiro de Sá, acolhe o ser humano com transtornos como estresse, bloqueios emocionais e problemas neurológicos. Leomara destaca que são vários os fatores que justificam a utilização da música como terapia, dentre eles, a sua pluralidade de sentidos e significados, assim como suas características de expressão e comunicação não verbal.
Além disso, a música provoca sensações que facilitam a expressão emocional ao atingir o sistema límbico, região do cérebro responsável pela emoção e afetividade. A técnica teve início na década de 70, com os primeiros cursos de formação implantados no Paraná e no Rio de Janeiro. Nos últimos dez anos, porém, a atividade terapêutica começou a se desenvolver mais intensamente em outros estados. De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), vários hospitais de Fortaleza trabalham com terapias alternativas, como arte, riso e pintura, sendo a maioria delas iniciativa de grupos voluntários. Porém, atividades relacionadas à musicoterapia, nos hospitais da Capital, são em sua grande parte iniciativa dos próprios médicos.
"Esse tipo de terapia atua nas dimensões corporal, psicológica, cognitiva, relacional e espiritual do paciente, podendo ser utilizada na prevenção e no tratamento de bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos, de acordo com a necessidade de cada um. A musicoterapia é para todos", afirma Leomara.
Além disso, a técnica pode ser aplicada individualmente ou de forma grupal, em hospitais, empresas, clínicas e ONG´s. "O paciente interage de forma ativa com o musicoterapeuta, num fazer musical conjunto. Nesse caso, podemos utilizar instrumentos musicais variados, objetos sonoros, sons do próprio corpo e a voz falada ou cantada", exemplifica. Leomara ressalta, ainda, que o paciente não precisa saber música para se submeter a um tratamento musicoterapêutico, já que a ideia é agregar.
Som Saúde
O grupo Som Saúde foi uma idealização da psicóloga e musicista Ré Campos, num desejo de unir suas duas grandes paixões: música e pessoas. Desde então, há seis anos, ela trabalha com pacientes que aguardam por cirurgias e altas médicas nos hospitais na tentativa de tornar a espera deles menos dolorosa. "Acreditando no poder terapêutico da música, nosso objetivo é fazer com que os pacientes passem o menos tempo possível aqui. A atividade de musicoterapia contribui para isso, pois atua como recurso e humanização, alivia a ansiedade e faz com que eles respondam melhor ao tratamento e fiquem mais tranquilos durante essa fase", pontua.
Após se submeter a uma cirurgia no coração e enquanto aguarda a permissão dos médicos para voltar para casa, o auxiliar de almoxarifado, José Aleide, frequenta a terapia musical ao lado de familiares e outros pacientes. "O encontro é fundamental pra que a gente possa se animar um pouco, já que o ambiente do hospital é desgastante. Além disso, durante a terapia de música, a gente relaxa, conversa e canta, o que nos faz muito bem", diz.
Durante a terapia musical, os pacientes participam ativamente do momento. Para tornar isso possível, Ré Campos tem o cuidado de levar instrumentos fáceis de manusear. "O som do instrumento é um mediador que estimula o canto e a expressão. Dessa maneira, tenho acesso a conteúdos psíquicos e emocionais dos pacientes", diz a psicóloga, que também faz terapia musical no Hospital Saúde Mental de Messejana. Entretanto, acredita que a saúde pública de Fortaleza precisa dar mais atenção a esse tipo de técnica, rara de ser encontrada na Capital, e de benefícios sociais e psicológicos essenciais.
Partilhas ajudam no processo de cura
"As práticas complementares de terapia acolhem o sofrimento, aliviam a dor na alma e reduzem o estresse causador de patologias a longo prazo", é o que afirma Adalberto Barreto, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), doutor em psiquiatria e antropologia. Há mais de 25 anos, exerce a metodologia da Terapia Comunitária Integrativa, iniciativa dele, atualmente aplicada no "Projeto 4 Varas", em Fortaleza.
Nos encontros, as pessoas compartilham experiências e problemas, recebendo auxílio de profissionais e dos próprios participantes FOTO: LUCAS DE MENEZES
"Durante a terapia, prezamos pela partilha de experiências entre os participantes que mostram as possíveis estratégias de superação dos sofrimentos do cotidiano e permite que a comunidade encontre, nela mesma, soluções aos problemas que, isoladamente, a pessoa, a família e os serviços públicos não foram capazes de encontrar", explica.
Na terapia comunitária desenvolvida no Projeto a pergunta principal é: "Quem já viveu algo parecido e o que fez para resolver?" A partir das histórias compartilhadas, os participantes descobrem que não estão sós, recebem apoio do grupo, criam novos vínculos e constroem uma nova rede de apoio. "Nesse tipo de terapia, a palavra é o remédio”, ressalta Barreto.
O grande desafio do "Projeto 4 Varas" tem sido, por um lado investir na prevenção, e por outro procurar criar um modelo de atendimento às pessoas que leve em conta os recursos e as peculiaridades da cultura local.
O Projeto atende à população com diversos profissionais, entre eles, massoterapeutas, terapeutas comunitários, psicólogos e psicoterapeutas. Em Fortaleza, as sessões da terapia acontecem em todas as regionais de Fortaleza através do Projeto 4 Varas. As reuniões acontecem todas as quintas-feiras, às 14 horas e é aberta ao público.

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