terça-feira, 11 de setembro de 2012

Atitude Transdisciplinar na Saúde.


João Bernardes da Rocha Filho
Professor de Física da PUCRS
Na educação de profissionais que lidam com a saúde humana, inclusive na pós-graduação, a transdisciplinaridade encontra um campo de grande impacto individual imediato, pois as ações transdisciplinares produzem efeitos benéficos rapidamente detectáveis no sucesso do tratamento de doenças e na qualidade de vida dos pacientes. Embora não se possa dizer o mesmo quanto à implementação, de uma certa forma é correto afirmar que a transdisciplinaridade, enquanto práxis epistemológica, tem uma vinculação maior com as ciências da saúde do que com qualquer outra área do conhecimento, pois são antigas as tentativas de integração realizadas no meio médico. Parece evidente, inclusive para profissionais de outras áreas ou qualquer pessoa esclarecida, que o tratamento de uma pessoa, especialmente no ambiente hospitalar, deveria se dar por meio de uma equipe envolvendo profissionais de várias especialidades que trabalhassem em harmonia, pois as pessoas adoecem integralmente. É de conhecimento generalizado entre os profissionais da saúde, especialmente entre o pessoal da enfermagem e membros recém integrados nas equipes de cuidadores, como os fonoaudiólogos, os psicoterapeutas, os pedagogos, e outros tantos, que “Se as posições reducionistas contribuíram muito para o grande desenvolvimento tecnológico, cooperaram também para a fragmentação crescente da realidade e das disciplinas e para a redução do sentido da vida humana.” (SOMMERMAN, 2006, p. 19). Em Psicossomática costuma-se dizer anedoticamente que nem uma fratura óssea caracteriza uma doença exclusivamente física, pois seria preciso considerar os porquês do acidente, além, é claro, das conseqüências psicobiofísicas do trauma.
O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, a exemplo de movimentos semelhantes em outras regiões, mantém estudos nessa linha por meio do Grupo Interdisciplinaridade na Saúde (GIDS) , demonstrando uma preocupação salutar com a qualidade dos cuidados que prestam aos pacientes internados naquela instituição. Este grupo procura, entre outras coisas, dar ênfase à postura humanitária e de compartilhamento dos profissionais de saúde com a equipe e com os pacientes. Para os leigos em geral parece incrível que seja preciso mobilizar esforços para que os profissionais da saúde reconheçam a necessidade de um posicionamento humanitário perante seres debilitados e assustados, deitados em leitos hospitalares, porque o mínimo que podemos esperar de humanos é que se comportem como tais, independentemente de suas profissões. Mas a questão envolve um problema sério: se o agir humanitário fosse naturalmente humano, ou seja, instintivo, não se precisaria apelar para ações dessa natureza, pois elas ocorreriam naturalmente. O problema é que quando nos referimos ao ser humano estamos geralmente excluindo uma boa parte dos instintos e incluindo o máximo de espiritualidade e desprendimento.
Podemos confiar em nossos instintos justamente porque eles nos trouxeram até aqui, em termos evolucionários, mas ao menos do ponto de vista biológico, o ser humano é um complexo produto de uma escalada que partiu do nível zero, ou de estágios muito primitivos, e ainda temos em nós algumas atitudes e comportamentos que nos aproximam de nossos ancestrais mais remotos. Na maior parte das vezes em que nos referimos ao humanitário idealizamos uma atitude que, rigorosamente, é produzida pela consciência mais elevada, justamente o que temos de menos animal e mais espiritual. Por isso precisamos conscientizar e educar as pessoas para serem mais que humanas, e não simplesmente humanas. Isso é válido especialmente para os profissionais da educação e da saúde, porque eles lidam, respectivamente, com seres que devem se desenvolver para serem mais do que são, e com seres fragilizados pela doença, pela dor e pela proximidade da morte. Atitudes transdisciplinares são, assim, fundamentais para o efetivo exercício dessas profissões, e as pessoas devem ser educadas e incentivadas a desenvolverem suas qualidades espirituais elevadas se quisermos que elas se tornem capazes de cuidar, de ensinar e de curar.
Há uma lacuna entre os significados biológico e ético da palavra humano. E precisamos identificar claramente essa diferença, pois isso envolve nosso posicionamento perante os fatos da vida, nossos alunos e pacientes. Não é possível unificar atitudes conflitantes num mesmo nível de compreensão, e muitas das características que atribuímos aos seres humanos são contraditórias. Significa que temos que ultrapassar o nível da contradição e compreender o humano como um devir, como um vir-a-ser, e aí encontraremos uma nova significação, livre de contradições. Nesse nível o humano ultrapassa o humano, apontando para o divino. É isso que deveria significar a palavra humano: um ser que caminha para a divindade, para a consagração. O que implica educação, pois depende da vontade racional, da conscientização, da individuação. É isso que Olgária Matos (2001, p. 63) nos oferece ao escrever que:
 Os humanistas passaram, ao contrário dos medievais, a considerar os acontecimentos políticos, científicos e históricos do ponto de vista da ação voluntária* dos homens, devendo-se cultivar e celebrar a verdadeira essência humana pelas studia humanitatis. (*) Grifo nosso.
A Sociedade Sul-Riograndense de Medicina Psicossomática , assim como o Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul  e a Sociedade Brasileira de Psicooncologia – Regional Sul, filiada à SBPO nacional , são algumas das entidades que congregam profissionais da área da saúde em comunhão interdisciplinar e transdisciplinar com várias outras áreas do conhecimento. Estas instituições reconhecem, intrinsecamente, a importância da associação de conhecimentos e ações no tratamento das moléstias humanas, e todas promovem ou planejam promover cursos de pós-graduação strictu sensu ou latu sensu de caráter interdisciplinar ou transdisciplinar. A SBPO-RS, aliás, oferece há anos um curso virtual de Especialização em Psicooncologia  em convênio com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que inclui fonoaudiólogos, enfermeiros, médicos, físicos e psicólogos. Dessa forma, uma grande parte dos eventos da área médica aceita e incentiva a apresentação de trabalhos com este direcionamento, pois está claro que uma abordagem especialista e hiper-objetiva da saúde humana não é adequadamente eficaz, o que a torna cara, tanto em termos de custos financeiros quanto em qualidade de vida dos cuidadores e pacientes. Sobre isso se pode ler um número recente da revista Saúde e Sociedade , da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que publicou quatro artigos sobre transdisciplinaridade na medicina.
 A introdução da Homeopatia como especialidade médica foi um marco na história da abordagem transdisciplinar nos cuidados com a saúde. Ela significou a aceitação da eficácia do método de Christian Frederick Samuel Hahnemann, desenvolvido nos séculos XVIII e XIX, que prescinde totalmente de um esclarecimento dedutivo ou causal-local razoável. A Medicina vem conseguindo manter-se no limiar da plausibilidade epistemológica clássica apesar da equiparação da Homeopatia às demais especialidades, escapando do enfrentamento da contradição por meio da confirmação estatística. É um sintoma típico da ruptura paradigmática. O mesmo está acontecendo com a Acupuntura, que já é praticada na rede pública e reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina . O único modo de superar a crise que se instala é compreender que há níveis diferentes e complementares da realidade, e que embora no nível da ação direta clássica um recurso possa ser eficaz, em outro nível esse mesmo recurso pode ser insuficiente ou até negativo em relação aos objetivos médicos. A assimilação é lenta, mas trata-se precisamente de uma percepção transdisciplinar resultante de um modo não-linear de perceber a vida e a realidade de um modo geral.
 Outro fato intrigante que prescinde de uma interpretação lógica causal está relacionado à cura por meio de placebos , ou cura através da fé. Nesses casos não há a intervenção ativa do curador pela administração de substâncias curativas, mas simplesmente pela sua presença ou pela sua palavra materializadas em uma cápsula de açúcar, farinha ou outra substância supostamente sem efeito medicinal. Para um grande número de medicamentos ou seus princípios ativos o placebo produz resultados que diferem apenas uns poucos pontos percentuais, em termos de eficácia, indicando que há fatores de cura implicados no tratamento, não relacionados à composição química do fármaco. Muitos médicos tendem a interpretar a eficácia do placebo como um efeito de condições psíquicas ou psicofísicas somente do paciente, mas parece mais cauteloso incluir nessa interpretação a interação com a equipe de cuidadores (FISH, 1988) e o ambiente no qual é realizado o tratamento, pois é intuitivo que a intenção do curador deve ser considerada, já que muitas vezes ela desempenha isoladamente o papel de placebo, como no caso da psicoterapia, por exemplo. De qualquer forma, como sempre, há processos inconscientes e não-racionais envolvidos, e possivelmente eles nunca venham a ser completamente elucidados.
 Com o reconhecimento da Homeopatia e da Acupuntura, podemos imaginar que outras terapias tradicionalmente consideradas alternativas sejam futuramente assimiladas pelo status quo médico, pois é difícil imaginar por quais motivos não seriam igualmente efetivas a Imaginação Ativa, a Cromoterapia, o Reiki, os Toques Sutis, a Calatonia, os Florais de Bach e demais práticas não-ortodoxas. Aliás, sobre a imaginação, Paul (2002) afirma que ela precede a aprendizagem e a própria palavra. Assim, podemos conceber que lidando com a imaginação do paciente podemos mobilizar forças curativas em sua natureza profunda. O cotidiano médico afirma isso.
 Referências Bibliográficas.
FISH, J. M. Placebo Terapia: A Fé no Processo de Cura. Campinas: Papirus, 1988, 166 p.
MATOS, O. C. F. Ethos e amizade: a morada do homem. In: DOMINGUES, I. (Org.). Conhecimento e Transdisciplinaridade. Belo Horizonte: UFMG/IEAT, 2001, p. 59-72.
SOMMERMAN, A. Inter ou Transdisciplinaridade? São Paulo: Paulus, 2006, 75 p.

O PAPEL DA MEDITAÇÃO E SEUS OBSTÁCULOS


Tales Nunes
Os Vedas dizem que você é a fonte de toda a paz. Porém, se eu experiencio apenas a ansiedade, a turbulência, como devo entender essa afirmação? Certamente acharei que esse ensinamento não funciona. Então, é necessária uma aceitação de mim mesmo, desse corpo, dessa mente, dessas emoções limitadas, para compreender a afirmação de que sou a fonte de toda felicidade.
Para adquirir essa tranquilidade algumas ações são importantes. Não é que não conheçamos a tranqüilidade de fato, caso contrário sequer a buscaria. Só busco o que conheço. O ser humano busca aquilo que de fato ele já é, a felicidade sem fim. Ele não se contenta com uma pequena satisfação, ele busca algo mais do que isso, porque exatamente em si mesmo ele tem a experiência desse mais, ele já conhece de alguma maneira a felicidade que está buscando.
Tudo o que nós fazemos na vida é para tentar resolver a questão da felicidade. Qualquer coisa que façamos é em busca dessa felicidade. Quero uma coisa que me faça completamente feliz. O ser essencial que nós somos é livre de limitação, então nós temos essa medida do absoluto. Para chegar a essa felicidade que é completa, é necessário uma mente que seja capaz de apreciar. De olhar para si mesmo e se aceitar como se é, ou seja, é necessária uma mente pura.
Uma mente pura
A mente purificada não é a mente que só tem bons pensamentos sobre as pessoas, sobre a natureza, sobre tudo. Essa mente não existe. A mente não é para ser negativa nem positiva demais. A mente deve ser objetiva. Uma mente negativa é sombria demais, essa mente escura ficará cheia de mosquitos, os mosquitos adoram o escuro!
Uma mente positiva é por demais floreada e só vê o lado bonito das coisas. O mundo não é nem só flores, nem apenas escuridão. Então o que nós queremos é uma mente objetiva. Até mesmo uma oração pode ser uma ação objetiva, quando analisamos que não podemos fazer nada a respeito de uma situação.
Então a mente purificada é uma mente objetiva, uma mente que está livre dos obstáculos. Uma mente livre dos desejos. Uma mente livre de desejos é uma mente que tem um espaço entre si e os desejos, os gostos e aversões. Quando aprisionado aos desejos, a mente não consegue esperar, ela está totalmente à mercê dos desejos, como que levadas por cavalos selvagens. A pureza da mente é uma mente que é um instrumento que está nas minhas mãos, é um instrumento de conhecimento, de aprendizado de um viver com maturidade e felicidade.
Preciso perceber que não consigo controlar totalmente os pensamentos, eles estão no ar e pousam na minha mente. Mas os pensamentos, para se desenvolverem precisam do meu carimbo, do meu aval. A capacidade de assistir o espetáculo da mente e de conduzi-la é ter uma mente purificada, uma mente livre. Achar que ser livre é fazer o que dá na cabeça é uma grande ilusão, porque na verdade fazer o que dá na cabeça é estar aprisionado aos gostos e aversões.
Agir deliberadamente
Nesse processo de compreensão de si mesmo, e aquisição de uma mente tranquila, é importante entender que eu tenho uma liberdade na ação, nas minhas escolhas, mas sobre o resultado das minhas ações eu não tenho controle algum. Eu não tenho capacidade de controlar o espetáculo imenso que é o Universo. Essa compreensão me liberta das reações. Leva-me a ter uma mente mais tranqüila e conduz a uma entrega.
A ação deliberada é uma ação escolhida. Reação é tudo aquilo que é mecânico. Toda vez que eu reajo, não estou consciente, não estou deliberando. Estou seguindo apenas um padrão, um padrão criado pela minha história pessoal. Quando repito o padrão não estou presente no momento, então não há aprendizado. Quando eu ajo conscientemente, estou presente, assim eu aprendo com cada situação. Então o quero dizer é que nós devemos agir, estar conscientes nas nossas ações e não reagir.
Muitas vezes nós achamos graça e damos valor às reações, como a raiva por exemplo. Há pessoas que tem um valor pela raiva, achando que através dela consegue as coisas. Mas isso é um engano, pois a raiva leva à reação e causa mágoas e outras reações. Existem atitudes úteis raivosas, nestes casos a raiva é um instrumento para algo. Mas na maior parte das vezes o que acontece é que a própria raiva age, como se a raiva tomasse conta do nosso eu, se apossasse de nós e agisse por nós. Essa segunda alternativa é geradora de mais reações e de mágoa.
A raiva não é deliberada. Ninguém fica com raiva quando quer. Não é uma ação, é um acontecimento. A raiva tomar conta de mim é um acontecimento que independe da minha vontade. Assim como o ciúmes tomar conta de mim não é deliberado, é um acontecimento. Quando determinados fatos acontecem, o gatilho em mim é disparado e a raiva em mim se manifesta. O que devemos saber é qual é o ambiente fértil que faz a raiva aparecer, uma vez que não temos controle sobre a manifestação da emoção em nós. Dessa maneira nós podemos fazer algo antes da emoção surgir, assim o causador da emoção está em nossas mãos.
As reações atrapalham a nossa mente, por isso são chamadas de impurezas da mente. Tudo aquilo que atrapalha essa minha satisfação, o meu estar bem, isso é chamado nesse ensinamento de impureza da mente. Como resolver? Compreendendo aquilo que aciona essas reações em mim. Eu faço isso estando presente, estando disposto a jogar luz sobre os acontecimentos e sobre mim mesmo, sobre as minhas reações.
A pergunta que deve ser feita é: o que é que me mobiliza, o que dispara o gatilho e me faz entrar no padrão, seja padrão da raiva, da tristeza etc? Devo fazer uma retrospectiva do que pode ter acontecido que me levou a ser levado pela emoção. Isso é cittashodhakam, a capacidade da mente de se entender, de se olhar, se aceitar, se compreender.
A principal reação que nós temos é a raiva. E jogando luz sobre essa emoção percebemos que inicialmente ela tem a forma de uma irritação e depois toma formas diferentes. Essa reação básica é devido a diferença entre a nossa expectativa e o que acontece na prática. Quando agimos temos uma expectativa em mente e nós fantasiamos essa expectativa como já sendo real. Mas quando o que acontece é contrário ao que eu esperava, nasce dali, em forma de reação, a raiva.
A partir dessa reação, nós podemos fazer qualquer coisa. Além do fato da emoção nos cegar, tanto para as ações como para o aprendizado com a situação, como ficamos cegos, não aprendemos com a situação. Essa reação nos coloca dentro de um ciclo, porque necessariamente eu cairei outras vezes novamente no padrão. A meditação é uma forma de jogar luz sobre a mente e de quebrar esse ciclo de reações.
A meditação
A meditação não é samādhi, se interpretarmos essa palavra como a cessação do fluxo de pensamentos. Na meditação o que acontece é um vitti pravāha, um fluxo de pensamentos. Mas um fluxo chamado sajati vritti pravaha, um fluxo de pensamentos da mesma natureza.
Inicialmente na meditação deve se criar uma referência para a mente. A meditação é algo que envolve apenas os pensamentos. Então, para a mente se distrair menos e para quando ela se distrair reconhecermos a distração e trazermos a atenção novamente, é importante uma referência. Se, por exemplo, foco a minha atenção na respiração e a minha mente se distrai, logo eu me dou conta e volto a minha concentração. Porém se eu estou sentado na meditação, e não há esse ponto de foco para eu direcionar a minha meditação quando eu me distraio, posso não me dar conta da distração e me deixar levar por ela. Ou seja, é mais fácil de eu me deixar ser levado para passear pela minha própria mente.
Então na meditação você está contemplando, observando um mesmo pensamento ou um ponto de foco e num certo momento você se distrai, isso é natural porque a mente funciona por associações. Mas ao se dar conta você traz novamente a atenção aos pensamentos deliberados.
A meditação deve ser como um fluxo de óleo, ter uma consistência, um fluxo, ter uma continuidade. Não como a água, oscilante. Então a meditação deve ser conquistada aos poucos até se tornar natural, como a correnteza de um rio que me leva para Mim mesmo. A meditação deve ser diária e o seu tempo aumentado progressivamente. Assim nós vamos criando uma profundidade na meditação. A melhor meditação é a natural, aquela que você senta e não precisa fazer esforços.
Se a meditação não lhe traz um fluxo constante e natural e cria tensão e crítica, muita exigência, é sinal de que pode estar acontecendo algo errado na meditação. O que nós vemos muitas vezes são pessoas que tem uma grande disciplina, que fazem meditação há muitos anos, mas não tem uma aceitação de si mesmo, não tem uma paz em si mesmo.
A mente meditativa não deixa os problemas se acumularem e lida com as questões mentais e emocionais à medida que elas surgem, porque o valor é por uma mente tranquila. Então se está em conflito a pessoa quer resolver, consigo mesmo e com a outra pessoa. Aumenta a tolerância em relação a si mesmo e as pessoas. Afinal a pessoa reconhece que os impulsos que a outra pessoa carrega e as ações que ela faz eu também poderia fazer, se estivesse na situação dela.
A meditação também é uma ação. Na meditação existe a meditação, um meditador e um objeto de meditação. Quando você observa a meditação, o objeto de meditação é a respiração. Quando se faz japa, o objeto de meditação é o mantra. Existem outras técnicas. Pode-se, por exemplo, focar a atenção em um ponto único. Há diversos ganhos com essas técnicas.
Mas devemos ter sempre em mente que o foco último da meditação é descobrir o meditador, descobrir a paz, o aconchego em si mesmo. Em todos os lugares que a mente vai, naquele momento é o samadhi. Porque nosamadhi eu estou comigo mesmo. Mesmo vendo pensamentos e emoções, eu estou comigo mesmo. Para isso preciso compreender que sou o brilho constante da Consciência que ilumina tudo o mais.
A meditação deve ser exatamente como um fluxo de amor, de devoção. Um amor por estar com você mesmo, com a sua real natureza, que é de paz, de amor, de plenitude. O amor por algo maior e por si mesmo, que é a devoção, não pode ser trazido á força, mas é um relacionamento, uma entrega associada a uma compreensão e aceitação.
A meditação pode ser simples e sem esforço. Para ter efeito não precisa ser complexa, pode ser simples, mas mesmo assim ser eficaz. Não precisa guardar um grande mistério ou uma grande magia. A grande magia da meditação é fazer você entrar em contato consigo mesmo.
Obstáculos da meditação
1)     Sono – a mente associa o acalmar do corpo e da mente ao dormir. Então quando sentamos e acalmamos o corpo e a mente, surge o sono. Esse é um obstáculo natural. Muitas pessoas acham isso muito bom, porque algumas pessoas restabelecem um sono tranquilo através da meditação. Isso pode ser bom para o seu sono, mas não para a meditação. Não deixe a mente associar a meditação com o sono.
2)     Distração – Eu não sinto mais sono na meditação, mas a minha mente vagueia entre diversas coisas do meu dia-a-dia. Isso também é natural porque muitas pessoas não se dão tempo. Não se dão tempo para digerir situações da vida. Para refletir sobre coisas que aconteceram no passado e lidar frente a frente com essas situações.
Nós não temos a percepção de que o tempo é feito para nos servir, para nós fazermos uso dele. E faz parte usar o tempo para refletir sobre a vida e situações que acontecem conosco. É passar a limpo o dia com o objetivo de digerir todas as situações, sentimentos, reações que acontecem conosco.
Até o ponto de passarmos a limpo todas as situações à medida que elas acontecem. Então se não damos esse tempo para nós mesmos, quando sentamos na meditação, a mente nos joga esses temas para digerirmos naquele momento.
3)     Parede que parece bloquear a meditação – a pessoa não fica mais com sono, não fica agitado, mas não alcança profundidade alguma. A pessoa não está se preocupando, mas também não há o estado de paz antes alcançado. É como se houvesse uma parece à sua frente. Não há ao certo do que reclamar.
Isso acontece porque a meditação joga pra fora muitas coisas que estão guardadas no nosso inconsciente. O nosso inconsciente guarda coisas desde a nossa infância. Várias coisas ocorreram na nossa vida e o inconsciente tem a função de guardar essas coisas porque no momento em que elas ocorreram eram grande demais para que a gente pudesse lidar com elas.
São situações dolorosas que não temos maturidade para conhecer. Esses “traumas” ficam ali guardados porque se ficar na mente consciente pode causar um distúrbio para a própria mente. Então ela guarda no inconsciente, a memória junto com as emoções e impressões associadas àquelas situações.
Se a gente nunca lida essas questões guardadas no nosso inconsciente, muito adiante, quando mais velhos, nós passamos por desconfortos, angústias, ansiedades, e sequer sabemos de onde vem, parecem não ter razão. Quando de fato são essas questão pedindo para serem olhadas, revistas, resolvidas.
Essas situações só saem à tona completamente quando damos a chance de olhar e quando temos a postura de aceitar e de compreender, de amadurecer. E quando assimilamos isso tudo, essa impressões ficam em nós com a mesma realidade que tem um sonho, que de fato acontece e ainda me influencia, mas que passou.
Então, a meditação é um campo fértil para que essas situações venham à tona, para que possamos lidar com elas. Assim, os tijolos dessa parede que surge na meditação são essas situações, emoções que ficaram guardadas e que estão para vir à tona. Às vezes nem percebemos qual é exatamente o assunto e não quer dizer que precisemos ficar tratando a situação psicologicamente.
Essas situações podem ser processadas, às vezes, através de simples imagens que aparecem na meditação, ou de emoções que ali afloram, um choro, uma recordação sensível. Noutras vezes o tema pode carregar tal força que aí sim precisamos recorrer á ajuda terapêutica. Não é necessário ter receio porque as situações só afloram quando a mente já ganhou a maturidade suficiente para lidar com elas. Essa é a inteligência intrínseca à mente.
4)     Achar que a felicidade é produzida pela meditação – Parece contraditório esse ser um obstáculo, porque se eu busco a paz, qual o problema de eu experienciar a felicidade na meditação e achar que esta está sendo produzida pelo meditar. O problema é que a meditação não produz felicidade. Aquela felicidade ali é já você mesmo.
Mesmo no momento em que está tudo maravilhoso, deve se reconhecer que eu sou esse maravilhoso. Quando estou feliz e em paz, que eu sou essa felicidade e essa paz. Em resumo, é trazer a compreensão de que não foi a meditação que produziu em mim a felicidade, mas apenas permitiu que aquilo que eu sou verdadeiramente fosse evidenciado.
É reconhecer a diferença entre o produzir alguma coisa e o ser alguma coisa. Na meditação descobrimos o que somos, a paz que somos. Não estou experienciando uma paz, eu sou a paz. Quando eu estou comigo mesmo eu estou em paz, e para isso eu não preciso estar em meditação. Eu preciso estar em contato com esse Eu, que é completo, que é independente, que não precisa tirar várias coisas do mundo para ser feliz.
Mas que encontra um aconchego e um conforto em si mesmo, independente das situações serem confortáveis ou difíceis. Mesmo nas situações difíceis, quando relaxamos, estamos confortáveis.
O ato de meditar faz parte de algo maior que é uma vida meditativa.
A meditação é para nos colocar mais firmes no chão, ou seja, pessoas com mais objetividade e clareza mental. O objetivo maior da meditação, devemos lembrar, é fazermos de todo o nosso dia um ato consciente. É ter atenção constante nas nossas reações, nas nossas emoções e pensamentos diários. Quando eu olho e enxergo a reação no dia-a-dia, isso é um ato meditativo.
Quando nós fazemos isso naturalmente, pouco a pouco no nosso dia-a-dia, o efeito é ter uma tranquilidade maior na nossa vida. A meditação inicialmente é incluída em determinado momento do dia, mas o objetivo é que ela tome conta do nosso dia-a-dia, na forma de consciência nas ações e reações.
O resultado da meditação é o aquietamento da mente, uma organização e um conhecimento mais profundo do seu mundo mental e igualmente do mundo real que nos certa. É a descoberta de um conforto em si mesmo, da paz que sou eu.
Em outro artigo “Meditação, a prática” veremos dicas práticas sobre esta disciplina fundamental. Boas meditações!