domingo, 29 de setembro de 2013

Males com hora marcada

Considerando que muitas doenças apresentam horário preferencial de manifestação e que o organismo humano se modifica durante a noite, fazendo com que certos males ocorram com mais intensidade nesse período, o livro Medicina da noite: da cronobiologia à prática clínica faz uma compilação das principais conquistas dessa área do conhecimento nas últimas décadas.
A cronobiologia, ciência relativamente recente que começou a se desenvolver a partir de meados do século 20, estuda os fenômenos biológicos dos seres vivos em função do tempo. Em outras palavras, trata-se do estudo do horário em que as doenças tendem a se manifestar.
A obra, que acaba de ser lançada pela Editora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), traz artigos de médicos brasileiros que abordam, com base em pesquisas científicas, revisão de literatura e experiências de consultório, a influência da cronobiologia em diversas especialidades, entre elas endocrinologia, neurologia, psiquiatria, pneumologia, cardiologia, reumatologia e ginecologia.
"A cronobiologia não envolve apenas os ciclos diários relacionados ao dia e à noite, mas envolve também fenômenos mensais, cujo grande exemplo é a menstruação. Esse talvez seja o ciclo biológico marcado pelo tempo mais conhecido pela humanidade", disse José Manoel Jansen, um dos organizadores do livro, à Agência FAPESP.
A publicação informa, por exemplo, que as doenças inflamatórias em geral, assim como problemas alérgicos como rinite e asma, tendem a piorar na madrugada, período marcado também pela maior prevalência de mortes cirúrgicas e pelo aumento do número de mulheres em trabalho de parto.
"Uma das explicações para a maior prevalência dos partos, algo que é estudado desde 1700 no mundo civilizado, é o maior relaxamento das mães durante a noite. Por outro lado, as causas da maior incidência das mortes cirúrgicas nesse período ainda não são completamente conhecidas", disse Jansen, que é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
O livro também aborda a cronofarmacologia, que estuda os efeitos dos medicamentos em função do tempo. "Dependendo da hora do dia, o organismo também reage aos remédios de forma variada. Por isso os médicos normalmente especificam os horários mais indicados para a ingestão de cada medicamento, levando em conta o período mais propício de manifestação dos sintomas de uma doença", explica.
Segundo Jansen, os pesquisadores do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos (GMDRB), vinculado ao Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), são os pioneiros em estudos sobre cronobiologia no Brasil. 



Importância do sono
A obra descreve ainda a contribuição das noites bem dormidas para a menor ocorrência de doenças, mostrando a importância do sono como um fenômeno vital, tão necessário quanto a alimentação, que contribui para a recuperação das funções física e psíquica dos indivíduos.
"Os problemas cronobiológicos são mais intensos, por exemplo, em pessoas que trabalham em turnos alternantes, ou seja, em alguns dias da semana durante o dia e em outros durante a noite. Esses indivíduos estão mais propensos a desenvolver males como úlcera e diarréia", explica o professor.
"Quando viajamos para outros países que têm fusos horário distintos, por exemplo, também desarranjamos essa ordem temporal interna do nosso organismo, o que nos faz ficar mais irritados e inquietos", complementa.
O livro, que tem 340 páginas e está sendo vendido por R$ 74, descreve ainda os mecanismos biológicos que controlam a relação do ser humano com o tempo, levando em conta suas variações nas diferentes faixas etárias.
"Os fenômenos cronobiológicos existem desde os animais mais primitivos. Durante a evolução, provavelmente alguns desses organismos, incluindo as plantas e os animais unicelulares, conseguiram se adaptar às variações temporais do dia e da noite, enquanto outros não se adaptaram e desapareceram", explica Jansen.
Segundo ele, os principais estudos sobre o assunto, que começaram com a mosca Drosophila melanogaster, identificaram no ser humano quatro genes que, devido a mecanismos específicos de produção de proteínas, são responsáveis pelo controle das marcações temporais dos fenômenos biológicos do organismo.
No hipotálamo do cérebro humano, conta Jansen, existe uma espécie de "relógio biológico principal", nomeado de núcleo supraquiasmático. "As células do organismos também possuem pequenos relógios biológicos que são guiados por esse relógio maior presente no cérebro, que controla todo o sistema nervoso e imunológico dos seres humanos", conclui o professor.
Mais informações sobre o livro: www.fiocruz.br 

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