quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A água revela-se como uma importante aliada contra diversas doenças. A crenoterapia explica como chegar lá

Água. Desde cedo é fácil habituar-se a ela. Está presente nas brincadeiras de infância, refresca o corpo em dias quentes ou, mais simples, sacia a sede. Aprende-se que a Terra, apesar do nome, está cheia mesmo deste elemento! E algo assim, tão abundante, muitas vezes utilizado de forma incorreta, pode oferecer benefícios à saúde mais do que se imagina. Traduza a frase anterior como a crenoterapia, técnica que utiliza água mineromedicinais (com propriedades medicamentosas) como recurso terapêutico. Aliás, é recomendada por médicos de diversas especialidades, como ortopedistas, reumatologistas, psiquiatras, cardiologistas, fisioterapeutas e massoterapeutas para auxiliar no tratamento de diversas enfermidades.
"Há cerca de cinco décadas, médicos de várias partes do Brasil enviavam pacientes para se tratarem com águas minerais e banhos em estâncias hidrominerais", conta o médico ortomolecular, clínico geral e especialista em Saúde Pública, Márcio Bontempo.
Antes de sair correndo para alguma estância hidromineral, saiba que é fundamental visitar um especialista. Isso porque cada água possui suas especificidades, como temperatura e composição química. "É necessário avaliar, primeiramente, as necessidades do paciente para depois indicar a estância mais adequada e como será o tratamento", informa Nivaldo Parizotto, professor titular do Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UfsCar) e responsável pela disciplina na qual estão inseridas a crenologia e hidroterapia.
Sagrado elemento!
De acordo a fisioterapeuta Teresa Cristina Alvisi, professora de Termalismo e Geriatria/Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Poços de Caldas, em Minas Gerais, é possível utilizar esse recurso natural de diversas maneiras. "Pode ser por balneação [imersão do corpo inteiro ou apenas uma parte], aplicação de duchas gerais ou parciais, ingestão, inalação ou irrigação interna", comenta.
Assim como Parizotto, ela frisa que conhecer a constituição química da água de um local é de suma importância para poder recomendá-la a um paciente. "Em Poços, por exemplo, a água é sulfurosa, ou seja, é rica em enxofre, que é um reconstituidor do tecido conjuntivo, presente nos brônquios, nas articulações, na pele e no sistema vascular. Por isso, a maioria de suas indicações está na pneumologia, reumatologia e no controle de hipertensão", descreve.
Já em Águas de Lindóia, estância hidromineral de São Paulo, há maior concentração de água bicarbornatada, que é antiácida e digestiva. "Pode ser indicada para pacientes com úlcera ou gastrite", exemplifica Parizotto. "Basicamente, qualquer enfermidade pode ser tratada ou amenizada com o uso de águas minerais", completa Bontempo. E não são poucos os locais em que se pode desfrutar de todas essas vantagens. Fique sabendo que o Brasil é o país com maior quantidade de estâncias hidrominerais do mundo. De acordo com Bontempo, o Circuito das Águas Sul Mineiro (que inclui São Lourenço, Caxambu e Lambari) é considerado o maior parque aqüífero do planeta. Só em Caxambu são 14 diferentes tipos de águas medicinais.
Qualquer enfermidade pode ser tratada ou amenizada com o uso de águas minerais
Fria ou quente
Pense naquele banho quentinho, depois de um dia estressante. Ele não só relaxa como provoca uma moleeeza. Por outro lado, quando tomamos uma ducha gelada, o ritmo respiratório aumenta e fica mais ativo. Já que diferentes temperaturas provocam determinadas reações no organismo, a propriedade térmica da água é outro fator a ser analisado antes de mergulhar de cabeça na crenoterapia. Afinal, dependendo da enfermidade, há uma temperatura ideal para que os resultados sejam realmente satisfatórios.
Para indivíduos que sentem dores físicas, por exemplo, uma fonte de água quente é uma ótima pedida! Chamada de hipertermal (a temperatura fica acima de 40ºC), ajuda "na redução da dor, representando um alívio importante na vida dessas pessoas" afirma Parizotto.
Há ainda as fontes mesotermais (a temperatura fica entre 30 e 40°C) e as hipotermais (entre 20 e 30°C). "Cada uma delas tem aplicações específicas e complexas, dependendo do caso", lembra Bontempo.
Forte aliada!
A fisioterapeuta da PUC faz questão de ressaltar que o tratamento com águas deve ser encarado como um complemento. "O uso das águas mineromedicinais tem funcionado como coadjuvante nos tratamentos medicamentosos. É necessário sempre um acompanhamento clínico", frisa. O especialista da UfsCar concorda. "É uma terapia cuja função é tornar ainda melhor o tratamento médico".
Segundo Parizotto, a técnica também deve ser encarada como uma maneira de prevenção. "Se mandarmos uma pessoa por 15 dias para uma das cidades balneárias, além de aproveitar as águas, ela também vai passear, relaxar, ter uma alimentação saudável e se divertir. Essa associação é capaz de reduzir as chances de o indivíduo desenvolver uma patologia decorrente do estresse, que é a maior doença do século".
Esse conceito de "turismo-saúde" já é explorado, inclusive, na Europa. "Lá as empresas estimulam a ida dos funcionários às estâncias", complementa Parizotto. Já no Brasil, essa parece ser uma realidade ainda distante, apesar de, em 2006, a crenoterapia ter entrado para a lista de técnicas terapêuticas que instituem a medicina complementar e integrativa na rede pública de saúde. "É um avanço", comemora Bontempo.
Tipos de fontes
Água é tudo igual? Não mergulhe nessa cilada
Sulfurosa: enxofre é seu principal componente. É antirreumática, antialérgica, desintoxicante e antiinflamatória.
Cloretada: sua composição é caracterizada, sobretudo, pela presença de cloreto. É expectorante e antiinflamatória.
Bicabornatada: rica em bicabornato, é antiácida e digestiva.
Ferruginosa: possui ferro, portanto, é antianêmica e reconstituinte.
Cálcica: contém cálcio em maior quantidade. É antialérgica, sedativa e antiinflamatória.
De malas prontas
Confira algumas cidades brasileiras que possuem estâncias hidrominerais
Goiás: Caldas Novas e Rio Quente.
Minas Gerais: Poços de Caldas, Caxambu, Araxá, São Lourenço, Lambari, Cambuquira.
Santa Catarina: Gravatal, Chapecó e Santo Amaro da Imperatriz.
São Paulo: Águas de Lindóia, São Pedro, Serra Negra, Águas da Prata e Olímpia. Paraná: Sulina.

HU investe em pesquisa e yoga para reduzir quedas de idosos

Anaïs Fernandes, do USP Online
Nos corredores do Hospital Universitário (HU) da USP, alguns passos são observados com extrema atenção. É a fisioterapeuta Fabiana Mara Branco, que analisa cuidadosamente a marcha de uma senhora. Fabiana é uma das integrantes do Grupo de Prevenção de Quedas (GPQ) do HU, que surgiu em 2010 com o objetivo reduzir a taxa de quedas entre a população idosa.
“A queda é uma causa importante de morte e perda da independência, ou seja, é um importante fator de morbidade”, explica o doutor Egídio Lima Dórea, idealizador do projeto. O GPQ atende pacientes considerados idosos, ou seja, acima de 60 anos, e que já tenham pelo menos um episódio de queda no ano anterior ao acidente atual ou um distúrbio de marcha muito importante. O grupo reúne ainda enfermeiras, nutricionistas, farmacêuticas, educadores físicos, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional.
Dórea conta que participou de um treinamento na Yale University School of Medicine (EUA), onde existe um importante grupo de prevenção de quedas. “Mary Tinetti, que elaborou a avaliação de marcha mais utilizada no mundo, faz parte do grupo. Fui até a equipe dela para ver como o grupo funcionava, como eles abordavam os fatores de risco de queda, e trouxe a ideia para montar o GPQ no HU.”
Segundo Dórea, o ideal seria que todo o médico que atendesse um idoso que deu entrada no hospital por motivos relacionados a quedas questionasse o paciente sobre acidentes anteriores e, caso a resposta fosse positiva, aplicasse o Time up and go test. Nele, o paciente anda três metros, ida e volta, enquanto o médico observa como ele se sai nesse percurso, se há alguma alteração muito relevante na marcha do equilíbrio.
“Mas como a gente sabe que menos de 20% faz o questionamento, o grupo realiza uma busca ativa. Vamos no pronto-socorro e na enfermagem uma vez por semana à procura de pacientes que estejam lá porque caíram”, afirma Dórea.
Redirecionados para o GPQ, os idosos passam por uma sabatina, num dia em que chegam às 11 horas no hospital e não têm hora certa para sair. Primeiro é aplicado um questionário sobre as circunstâncias da queda. Depois, cada profissional do grupo aplica sua escala. A terapeuta ocupacional, por exemplo, analisa a cognição do paciente. Outra escala gradua o medo de cair do idoso em suas atividades cotidianas.
O próximo passo é intervir em cada um dos fatores de risco diagnosticados. Para isso, além de encaminhar o paciente para os profissionais de cada área – consulta com oftalmologista, sessões de fisioterapia –, o grupo elaborou uma série de panfletos com explicações, orientações e exercícios. Existem também materiais audiovisuais, como um DVD em que um mestre de Tai Chi Chuan de 94 anos ensina alguns exercícios ou um CD com audioexplicações de exercícios para fortalecer a musculatura do assoalho pélvico. “O idoso tem que sair correndo para ia ao banheiro e nisso ele acaba caindo”, explica Dórea.
O retorno presencial é feito em três meses. Mas o acompanhamento da equipe acontece também pelo telefone. “Ligamos após 15 dias, 30 dias, três meses, seis meses e um ano, para saber se o paciente está seguindo todas as orientações”, afirma o médico.
Yoga na Terceira Idade
Ana Borella trabalhava cerca de 17 horas por dia em uma companhia aérea, incluindo sábados e domingos. Quando tinha 22 anos, voltando da empresa para casa de táxi, às 4 horas da madrugada, faltou-lhe o ar por completo. Era uma parada respiratória. Ana achou então que estava na hora de mudar seu modo de levar a vida.
Contanto essa história, e lembrando que nunca é tarde para começar, a professora de yoga Ana Borella deu início à última palestra mensal direcionada à Terceira Idade, outra iniciativa do GPQ.
Ana explicou alguns ensinamentos da yoga e mostrou exercícios e meditações que os idosos podem fazer na fila do banco, no sofá ou até caminhando. Uma pesquisa que vem sendo realizada pelas universidades de Harvard, Yale e Massachusetts Institute of Technology (MIT) encontrou indícios de que a meditação pode aumentar regiões do cérebro que, com a idade, tenderiam a diminuir.
A professora explica que a yoga ensina tanto posições que aumentam o conforto, a flexibilidade, o alongamento e o equilíbrio, como também trabalha com a mente, diminuindo a ansiedade, estimulando o bem estar e a sensação de segurança da pessoa. “Melhorando o equilíbrio, a estrutura da locomoção, dando flexibilidade e agilidade para aquela pessoa, e ela tendo consciência de como ela pisa, onde ela pisa, com força, ela não vai mais ter medo de cair”, afirma Ana.
Os nomes utilizados na yoga são complicados, vêm do sânscrito, e impressionaram a plateia. “Não precisa lembrar dos nomes, basta lembrar de colocar em prática o que eu mostrei aqui”, enfatiza Ana.
Imagem: Divulgação HU