segunda-feira, 8 de abril de 2013

Consulta pela medicina clássica chinesa

Autor: Isaac Padilha Guimarães Júnior
À medida que envelhecemos, vamos protagonizando a história de nosso tempo e acompanhamos nosso desenvolvimento em vários segmentos. Um dos que mais acompanhamos é o da saúde, com novas e promissoras tecnologias em benefício de nossa saúde e qualidade de vida. No entanto, à medida que ganhamos no avanço tecnológico, perdemos quase que compensatoriamente a arte sutil da percepção dos sinais, sintomas e manifestações clínicas que o paciente nos revela no momento de sua consulta.
Quantos de nós já não nos sentimos decepcionados por receber um atendimento pouco humanizado e simplesmente técnico, no qual temos pouca chance de realmente expressar o que estamos sentindo e desenvolver um relacionamento saudável entre profissional e paciente?
Muitas vezes retornamos da consulta tendo em mãos apenas solicitações de exames complementares, tendo a sensação de que não fomos compreendidos e devido ao curto tempo, também não conseguimos falar tudo o que realmente precisava ser exposto.
Sentimos saudade dos tempos em que tínhamos o médico da família, normalmente bem-humorado e conhecedor da realidade pessoal de cada membro, das suas funções e hábitos de vida. Normalmente esse profissional tinha um vasto conhecimento de clínica geral, observava a cor da face, dos olhos, do estado geral, percutia, auscultava e normalmente prescrevia o tratamento sem necessidade de muitos exames complementares.
Os exames são recursos que devem ser utilizados quando há necessidade de esclarecer pontos que não são muito claros à simples observação, mas de forma alguma devem ser o principal recurso para substituir a avaliação semiológica.
Uma medicina contemplativa
A medicina chinesa, em sua essência, é contemplativa e empírica. Sua avaliação começa ao ver o paciente pela primeira vez. A agilidade, qualidade dos movimentos, tiques, odores, tom de voz, cores que se refletem na face, todos esses sinais podem ser observados antes mesmo que o paciente diga seu nome. Esses sinais são a manifestação da qualidade energético-sanguínea da pessoa, que possui correspondência com a saúde e a vitalidade de seu organismo.
É claro que toda essa riqueza de experiência não substitui os recursos da medicina moderna, mas revela que a medicina clássica chinesa trilha outro caminho, baseado na observação e na experiência.
O clássico Ling-Shu, clássico da medicina chinesa sobre a arte da acupuntura, diz que “O clínico superior vigia a energia, o clínico comum perturba-se com os sinais e sintomas”.
Não é raro ficarmos um pouco confusos quando estamos adoecendo, sendo assim o diagnóstico da doença torna-se uma arte. Colher informações, às vezes, desconexas pode dificultar a compreensão do quadro clínico. Por isso, o Ling-Shu dá o conselho de não valorizar demais o quadro referido pelo paciente, sendo preferível estar atento às manifestações energéticas que podem ser percebidas pela cor da face, avaliação do pulso, língua, palpação de áreas do corpo, abdômen. O que percebemos é a realidade imediata, o que é referido nem sempre é verdadeiro, e quando verdadeiro nem sempre é atual.
No primeiro encontro com o paciente, o Ling-Shu ressalta a importância de tocar o espírito do paciente, pois é a realidade sutil que mantém e preserva toda a estrutura física. O tratamento então começa na avaliação, percebendo a fonte da desarmonia e, com sensibilidade, atuar no psiquismo do paciente.
Vamos tomar um exemplo de um paciente com uma desarmonia no fígado. Ele pode apresentar uma gama extensa de sinais e sintomas, tais como: distúrbios de sono, problemas digestivos, dor de cabeça, náuseas, problemas nos olhos, irritabilidade, perda da criatividade e capacidade de planejamento, dores musculares, etc. Cada órgão na medicina chinesa é responsável por qualidades e características da nossa estrutura física bem como aspectos do nosso psiquismo. Nosso cérebro, na medicina chinesa, é um local de processamento das mensagens provenientes dos nossos órgãos internos. Serve para expressar em gestos, posturas e movimentos a energia dos nossos órgãos. Nesse caso, o profissional pode atuar despertando no paciente a virtude capaz de equilibrar o fígado que corresponde ao elemento madeira e cuja virtude é a benevolência.
Ao tocar o paciente nesse nível, mudanças podem ser sentidas imediatamente. O tônus muscular, a cor da face e características do pulso podem sofrer mudanças antes mesmo de iniciar o tratamento que o paciente procurou.
Quando o próprio paciente compreende os motivos do adoecimento e participa ativamente na sua recuperação, bons resultados são obtidos em um curto espaço de tempo. Em contrapartida, uma má interação entre terapeuta e paciente, falta de afinidade e confiança interferirão negativamente, servindo apenas como uma forma de alívio temporário, sem atingir resultados satisfatórios.
Há quem diga que tratar dessa forma é induzir o resultado. Chamo isso de arte, uma capacidade que se desenvolve com base em conhecimento, mediante estudo e observação associado à sensibilidade e interesse em auxiliar o paciente em seu caminho de retorno ao seu estado de saúde.
Recursos técnicos fazem parte do arsenal terapêutico, mas a sabedoria da arte de curar transcende a técnica.
Isaac Padilha Guimarães Júnior é fisioterapeuta especialista em acupuntura e professor titular do Instituto Brasileiro de Acupuntura e Moxabustão de Porto Alegre (Ibrampa)

Intuição é explicada cientificamente, revalorizando o conhecimento prático

Anika Agebjörn
Intuição como forma de se adquirirconhecimentoA intuição, ouconhecimento tácito, é difícil de se medir, por isso ela é freqüentemente denegrida. Uma nova pesquisa feita na Linköping University, na Suécia, mostra que há uma explicação neurobiológica para a criação do conhecimento baseado na experiência.Lars-Erik Björklund utiliza várias declarações de pessoas bem conhecidas para ilustrar o significado de intuição, conhecimento tácito, conhecimento prático ou sabedoria prática. A intuição se baseia na experiência e é algo que os especialistas em muitas áreas adquirem.
Melhores julgamentos vêm com a experiência
"Em estudos com enfermeiras nos anos 1980, foi demonstrado que aquelas que tinham mais tempo de profissão tinham maior compreensão dos problemas e faziam melhores julgamentos mais rapidamente. Isto foi chamado de habilidade intuitiva," diz Lars-Erik Björklund, que dedicou sua tese para revisar pesquisas em vários campos do conhecimento envolvendo a intuição.
Nos anos 1990, estudos similares foram feitos com médicos e homens de negócios, com resultados similares. O fato de que as pessoas com maior experiência são freqüentemente melhores no que fazem, que a prática aperfeiçoa, não é algo novo. Mas nenhuma boa explicação foi dada até agora sobre porque isto acontece.
Impressões sensoriais conscientes e inconscientes
Há alguns anos, neurocientistas descobriram que o cérebro humano tem sistemas duplos para receber e analisar as impressões sensoriais, um consciente e outro inconsciente.
No inconsciente, o sistema não-declarativo, nossas impressões sensoriais são comparadas com imagens armazenadas anteriormente. Todos nós temos um livro de fotografias interno que armazena nossas experiências, baseado no que nos aconteceu previamente na vida. Nós também lembramos os resultados - isto acabou bem ou mal?
Com a ajuda dessas impressões sensoriais armazenadas, nós inconscientemente avaliamos a situação com a qual nos defrontamos e podemos predizer seu desenrolar. Esta capacidade é especialmente útil em situações complexas e ricas em informações com uma grande quantidade de ruído associado.
Quanto mais variações de uma situação nós já tenhamos experimentado, mais rico será nosso livro de fotografias e mais provável será que reconheceremos a situação com a qual estamos lidando.
"Pode ser uma questão de cheiros, gestos, uma inefável combinação de impressões que faz com que o que nós chamamos intuição nos diga algo," diz Björklund. "Nós temos uma memória que precisa ser preenchida com impressões sensoriais."
Experiência prática
Entretanto, essas memórias são armazenadas somente se elas nos afetam. Em outras palavras, para que adquiramos experiência, deve haver comprometimento nosso com o fato.
Isto significa, de acordo com Björklund, que nós nunca poderemos aprender ou calcular nossa rota para todo o conhecimento e habilidades que precisaremos em nossa vida profissional. A experiência prática é indispensável e precisa ser reavaliada.
Um professor sem formação acadêmica com dez anos de experiência na profissão pode ser um professor muito melhor, assumindo que esta pessoa seja comprometida com seu trabalho, do que um professor recém formado, não importando o quão conhecedor ele ou ela é em termos do assunto da matéria.
Precisamos experimentar com nossos sentidos
Ele também argumenta que atividades envolvendo a prática e trabalhos de laboratório devem ser expandidos, e não reduzidos, em programas profissionais para engenheiros, professores e médicos. "Nós precisamos ver, sentir, cheirar, ouvir, saborear e experimentar com nossos sentidos. Essa coleção de informações não pode ser substituída pelo estudo dos livros-texto," escreve ele em sua pesquisa.
"A experiência é subavaliada hoje, e isto talvez aconteça porque nós não tínhamos entendido esse tipo de conhecimento tácito. Agora nós sabemos, graças ao pesquisadores do cérebro."
"[As pessoas mais experientes] podem não ter tanta energia quanto um jovem recém formado, mas têm uma habilidade superior para ver e julgar o que deve e o que não deve ser feito," escreve ele em sua conclusão.