terça-feira, 18 de junho de 2013

Saúde além da saúde

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Por Mariana Franco
A medicina oriental baseia-se no equilíbrio e harmonia entreenergias opostas Yin e Yang, que regem comportamentos, estados de espírito ediferentes estruturas corpóreas. No corpo, são identificados meridianos pelos quais passa a energia, e à boa circulação desta deve-se o equilíbrio. Em pontos desses meridianos aplicam-se agulhas na técnica da acupuntura ou pressiona-se na técnica de massagem shiatsu (pressão realizada com os dedos, em japonês).
“As energias são complementares, uma depende da outra. Se um lado está deficiente, faltará energia para o outro, que terá de se manifestar. Há pessoas que não fazem nenhuma atividade ou exercício físico, vivem sob pressão ou estresse, e isso causa uma reação no organismo. Se não existe um meio de extravasar, melhorar ou se recuperar desses estresses, o corpo vai ficando cada vez mais deficiente e desequilibrado. Isso abre portas paradoenças se instalarem”, explica Osvaldo Hakio Takeda, coordenador do Projeto Zen, iniciativa do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP para divulgar terapêuticas complementares para a população.
“O relaxamento e o bem-estar levam a uma melhora da qualidade de vida. As terapias alternativas devem unir-se ao tratamento tradicional, não para substituí-lo, mas para potencializá-lo”, afirma Takeda. Diana Pozzi, médica especializada em onco-hematologia da Faculdade de Medicina (FM) da USP, explica que há algumas décadas acreditava-se que os resultados de tratamentos alternativos deviam-se somente ao efeito placebo – a confiança no resultado. Com o tempo, porém, o tratamento de doenças oncológicas tornou-se cada vez mais caro e menos eficaz, e os pacientes começaram a voltar-se para outras terapias. A medicina complementar mostrou, então, bons resultados contra os efeitos colaterais da quimioterapia, aliada ao tratamento de cânceres e doenças crônicas.
“Na área de oncologia nós aprendemos a conversar muito com os pacientes e passamos a ver que existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa chamada ‘vã filosofia’. Há muitas coisas que agem nos pacientes e colaboram com nós, médicos, e colaboram com o tratamento”, afirma Diana.
“Vemos, na prática, que não só terapias, mas situações afetivas das mais diversas são importantes. A presença dos familiares e a fé religiosa num tratamento, o contato físico com a mãe no desenvolvimento da criança pequena, fazem parte do bem-estar. Talvez isso tudo se deva à interação de energias, porém, quando chegamos nesse ponto é difícil provar –financiadoras de pesquisas dificilmente apoiam esses trabalhos, a ciência tradicional não os aceita. Há muita coisa que ainda ignoramos, por exemplo, a atuação dessas energias sobre nós, mas exatamente por ignorarmos que precisamos pesquisar”, conclui.
Saiba mais sobre o Projeto Zen, realizado no IPq, sobre a acupuntura, seu uso e efeitos e sobre como as emoções podem mexer com nossa saúde. Abaixo os locais de atendimento público em medicinas alternativas.

Entenda a homeopatia

Isabela Morais
Pesquisador esclarece os princípios da especialidade e garante que ela pode mudar o curso natural de muitas doenças
Espirros, coriza e muita coceira. “Costumava pegar a ponta do lençol para coçar o céu da boca. Sempre que visitava alguém, morria de vergonha, pois logo começavam os espirros e a coceira absurda nos olhos”, conta a corretora de seguros Jussara Maria Vieira Nogueira, de 49 anos. Em 1997, ela passou a sofrer com os sintomas agravados da rinite. Após problemas com a sogra, que se chateava com suas atitudes, a corretora resolveu buscar a homeopatia para acabar com o incômodo no ano de 2002, quando participou de uma pesquisa na Faculdade de Medicina (FMUSP). “Tive certeza de que tomava remédios de verdade, pois os efeitos surgiram no início”, afirma.
A certeza de Jussara quanto à eficácia do tratamento homeopático, porém, contrasta com o desconhecimento e as reprovações que a especialidade encontra entre pacientes e médicos. “Costumam achar que a homeopatia trata com plantinhas e chazinhos. Não é nada disso”, esclarece Marcus Zulian Teixeira, pesquisador da FMUSP. Acostumado a discutir questões relacionadas ao tratamento, ele explica à revista Espaço Aberto o funcionamento e os princípios que estão dentro das pequenas bolinhas brancas.
Cura pelos semelhantes
“Desde a Grécia Antiga, Hipócrates ensinava que existiam duas formas de tratamento”, conta o pesquisador. A primeira baseia-se no Princípio dos Contrários, empregado pela alopatia. Nesse método são utilizadas substâncias que agem “contra” os sintomas da doença. “Contra a inflamação, temos o anti-inflamatório. Contra a acidez, o antiácido. Contra a depressão, a alopatia utiliza o antidepressivo. O método corta o sintoma manifesto”, exemplifica.

Homeopatia não é fitoterapia: a primeira age com base no Princípio dos Semelhantes. Já a segunda, de acordo com o Princípio dos Contrários
Já a homeopatia age com base no Princípio dos Semelhantes. O tratamento utiliza substâncias que causam sintomas semelhantes aos manifestos nos pacientes. Com isso, o organismo é estimulado a reagir. Zulian diz: “Quando administro um medicamento que causa um sintoma muito semelhante ao que o paciente já apresenta, mostro ao seu organismo contra o que ele deve reagir”.
Experimentação no indivíduo sadio
Para saber que medicamentos indicar, é preciso que eles tenham sido experimentados anteriormente. “Qualquer substância pode ser um medicamento homeopático. Mas antes ela é experimentada em um grupo de pessoas sadias”, revela. A experimentação homeopática funciona como a da farmacologia clássica: um grupo de indivíduos saudáveis consome determinada substância. Em seguida, observam os sintomas. “São consideradas as alterações emocionais, psíquicas, orgânicas, físicas, etc. Tudo conta. Depois, os sintomas são catalogados e assim temos um perfil de tudo que aquela substância causou em diversos sistemas do organismo”, explica. Existem cerca de 3 mil substâncias experimentadas e cujos efeitos foram catalogados, podendo, assim, se tornarem medicamentos homeopáticos.
Individualização do medicamento
“O doutor vasculhou a minha vida. Perguntou sobre meu ritmo de vida, se gostava de doce, de salgado, se dormia bem, se era ansiosa, se tinha carpete, tapete. Tudo!” A primeira consulta de Jussara durou cerca de 3h30. Segundo o pesquisador, a consulta é longa, porque é preciso conhecer todos os aspectos do indivíduo, já que todas as características foram consideradas na experimentação e são importantes para escolher o medicamento.
Com um perfil detalhado, o médico é capaz de buscar, dentre todas as substâncias experimentadas, aquela que engloba a maior parte das suscetibilidades do paciente, de acordo com o Princípio dos Semelhantes. “Um remédio sempre atinge vários problemas e não apenas um”, conta. Ou seja, a homeopatia busca tratar a totalidade dos sintomas do doente e de sua doença, e não só a queixa principal.
Por isso, não há medicamento comum para queixas comuns. A prática de medicar de acordo com um sintoma é errada. “Não vai funcionar; o medicamento deve ser individualizado, pois a manifestação da doença varia de pessoa para pessoa”, adverte. Em sua tese de doutorado, defendida no ano de 2009 na FMUSP, por exemplo, Zulian estudou a resposta do tratamento em pacientes com rinite alérgica crônica – pesquisa da qual Jussara participou. Todos os participantes (cerca de 50) apresentavam a mesma doença, mas todos receberam medicações individualizadas e possivelmente distintas.
Por levar em conta o indivíduo como um todo, além das horas gastas no consultório, a homeopatia exige paciência fora dele. De acordo com Zulian, o tratamento, por ser individualizado, precisa de tempo e não encontra espaço para imediatismos. “Dou um medicamento, espero e avalio a resposta. Se não deu certo, recorro a outro medicamento que englobe a maior parte dos sintomas e espero a resposta. O remédio ideal pode demorar para ser encontrado”, ressalta.
Ultradiluição
Nas pequenas bolas brancas, encontra-se a substância ultradiluída. “Imagine que você tem dor de cabeça e eu te dou um medicamento que causa dor de cabeça. Para fugir da agravação, diluímos a substância. E isso funciona melhor que uma dose massiva. Em comparação com a alopatia, há menos efeitos colaterais”, esclarece.
Após a ingestão, considerando que se tenha encontrado o medicamento ideal, os efeitos surgem da reação do próprio corpo. “Nos distúrbios crônicos, o organismo se ‘acostuma’ com a doença. Quando você administra um medicamento que desperta novamente o sintoma, o corpo ‘acorda’ e luta contra o agressor. Essa reação pode durar horas, dias, semanas ou meses. A homeopatia não tem na droga o fator definitivo da ação, mas sim na reação desencadeada pelo uso de uma substância”, diz.

De acordo com Zulian, a homeopatia tem o potencial de lidar com os aspectos emocionais da saúde
Após diversas mudanças na medicação, Jussara encontrou um bom medicamento. Além de amenizar os sintomas da rinite, ela relata que houve melhoras em seu humor e em suas dores de estômago. Dez anos após o início do tratamento, a corretora já não toma os medicamentos, mas os resultados ainda são visíveis. “Faz dez anos que não tenho uma crise de rinite. Nunca mais cocei o nariz com desespero. No máximo, o que ocorre são alguns espirros. Nem resfriado eu tenho mais”, conta. Para Zulian, a proposta da especialidade é justamente essa: a de mudar o curso natural das doenças. Aos que desejam continuar com a medicação alopática, a homeopatia pode ser utilizada em conjunto no início do tratamento (até ser escolhido um medicamento ideal).
Enxaqueca, alergias, doenças crônicas e sintomas da tensão pré-menstrual (TPM) podem receber cuidados por meio da homeopatia. A especialidade é aconselhada para tudo que possa ser tratável. O pesquisador destaca que o mais importante é conseguir lidar com a parte emocional dos pacientes, tratando ansiedades, inseguranças, medos, irritabilidades, etc. Ele lamenta, porém, que o conhecimento sobre a especialidade seja embasado em preconceitos e que as pessoas o procurem como última alternativa. “É difícil a homeopatia não ajudar. Considero que ela é adjuvante e deveria estar presente em todos os hospitais para auxiliar a população”, diz.
No site da revista Espaço Aberto você pode encontrar outras informações sobre as provas científicas e o uso da homeopatia no Sistema Único de Saúde (SUS). Acesse este link.