terça-feira, 27 de agosto de 2013

Meditação e cura – parte 3

A boa circulação em nossa mente pode ser restabelecida e as complicações psicológicas que causam bloqueios no corpo podem desaparecer aos poucos. A mente alerta é sobretudo a capacidade de simplesmente reconhecer a presença de um objeto sem tomar partido, sem julgar, sem cobiçar e sem desprezar este objeto. Por exemplo, suponhamos que exista um lugar dolorido em nosso corpo. Com a mente alerta, nós simplesmente reconhecemos esta dor. Isto pode ser um tipo de oração bem diferente daquele a que você está acostumado, mas sentar em meditação e estar consciente desta dor, isto também é oração. Com a energia da concentração e da introspecção, somos capazes de ver e entender a importância dessa dor, o verdadeiro motivo por que surgiu e a maneira como seremos capazes de curá-la, com base na compreensão que provém da mente alerta e da concentração. Se tivermos ansiedade demais, se estivermos imaginando sempre coisas, esta ansiedade e estas imaginações vão trazer estresse à nossa mente, e a dor aumentará. Não é câncer, mas nós imaginamos que é câncer, e nós nos preocupamos e lamentamos até não mais conseguir comer nem dormir. A dor redobra e pode levar a uma situação mais grave. Em um sutra, o Buda dá o exemplo de duas flechas. Se uma segunda flecha é lançada para dentro da ferida causada pela primeira flecha, a dor não será apenas dobrada, mas dez vezes maior. Não deveríamos deixar que uma segunda ou terceira flechas chegassem e nos ferissem ainda mais por causa de nossa imaginação e de nossas preocupações. Quando perseguimos os objetos do desejo dos nossos sentidos como dinheiro, fama, poder e sexo, não estamos em condições de produzir autêntica felicidade. Ao contrário, criamos muito sofrimento para nós e para os outros. Os seres humanos estão repletos de desejos. Dia e noite correm atrás desses desejos e, por isso, não são livres. Se não forem livres, não se sentem à vontade e não experimentam a felicidade. Se tivermos poucos desejos, ficamos satisfeitos com uma vida simples e saudável, com viver profundamente cada instante da vida diária, com amar e cuidar de nossos entes queridos. Este é o segredo da verdadeira felicidade. Na nossa sociedade atual, muitíssimas pessoas procuram a felicidade na satisfação dos desejos dos sentidos. Aumentou em muito o sofrimento e o desespero. O sutra da Floresta fala do desejo como de uma armadilha. Se formos pegos na armadilha do desejo, vamos lamentar e perder toda nossa liberdade, e não podemos ter verdadeira felicidade. O medo e a ansiedade também geram sofrimento. Se tivermos suficiente compreensão para aceitar uma vida simples e estar satisfeitos com o que temos, não nos precisamos preocupar mais nem temer nada. É só porque achamos que amanhã podemos perder nosso emprego e não receber o salário mensal que vivemos em constante nervosismo e ansiedade. Por isso, a única saída para nossa civilização é consumir pouco e produzir mais felicidade. (Do livro “A energia da oração” – Thich Nhat Hanh) - See more at: http://jalternativo.hospedagemdesites.ws/?p=2165#sthash.r8fmi0sF.dpuf

Programa da FSP confirma benefícios terapêuticos da meditação

Por Juliana Prado 
“A prática da meditação no Brasil ainda é nova, desconhecida e comporta muitos preconceitos”. É dessa forma que o professor Rubens de Aguiar Maciel entende o contexto da prática foco do Programa de Redução do Estresse, que coordena no Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.
O conhecimento da meditação chegou ao Ocidente após a invasão do Tibete pela China, o que gerou uma diáspora, levando à dispersão da prática. Os tibetanos praticantes, entretanto, possuem hábitos monásticos, e, dessa forma, há uma aculturação do conhecimento, de forma a tornar-se acessível ao indivíduo urbano, possibilitando que este execute os ensinamentos no seu cotidiano.
Maciel, que é psicólogo com prática em psicanálise, explica que a partir do momento em que começou a ver a abrangência, o alcance e a importância que a meditação pode ter para a saúde pública, resolveu seguir adiante e tentar associá-la às práticas terapêuticas tradicionais, buscando uma aceitação por parte da academia.
90% da população mundial vive em algum grau de estresse, segundo a OMS, e poderia se beneficiar da prática de meditação | Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Atualmente, mesmo no Ocidente, a prática da meditação, no âmbito da saúde pública, é de grande importância, uma vez que restabelece a saúde de uma maneira rápida, barata e autoadministrável, explica Maciel. Ele aponta para os dados de que praticantes de meditação há quatro anos ou mais reduzem em mais de 70% a ida ao sistema de saúde e em mais de 80% a ida ao sistema de saúde mental.
Praticantes de meditação há quatro anos ou mais reduzem em mais de 70% a ida ao sistema de saúde.
O professor ressalta, entretanto, que a prática não funciona através de uma busca objetiva de resultados, em que uma pessoa inicia a meditação com um propósito de cura definido e alcança esse resultado como uma consequência lógica de ações.
Na meditação, uma das principais propostas é a de apresentar uma postura de curiosidade e de aceitação para com o mundo mental particular de cada um. Que seja possível olhar pra dentro de si sem receios, sem críticas, sem julgamentos e sem racionalizações. Nesse momento há um acesso direto ao mundo mental, sem intermediários, o que possibilita uma abertura e aceitação.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Assim, a meditação pode ser praticada por todas as pessoas, especialmente quando se tem que a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que 90% da população ocidental vive em uma condição de estresse, sendo esta a condição normal dessas pessoas. Isso, conforme o professor, gera um desequilíbrio para a saúde e o bem-estar e, assim, a meditação poderia entrar como um meio de se promover o conhecimento de si diante dessas condições não ideais nas quais esses indivíduos se encontram. Questões como “quais os meus valores?”, “como eu estou vivendo?”, “quem sou eu?” e “como é que eu me identifico?” seriam mais bem trabalhadas e conduziriam o praticante a uma melhora na sua qualidade de vida.
Tatiana Aoki Cavalcanti, praticante há mais de cinco meses, apóia a fala do professor. Para ela, mesmo nesse pouco tempo, não há uma mudança muito clara igual a um remédio, que se toma e se obtém um resultado rápido, mas que, mesmo não imediatas, as mudanças acontecem. “Eu mudei muito”, sintetiza.
Já para Paulo Roberto Navarrette, praticante também há cinco meses, as mudanças foram ainda mais expressivas: “hoje tenho um controle maior, não sou explosivo, eu estourava muito. Eu me senti senti diferente, bem diferente, a partir do momento em que eu passei a praticar a meditação. Senti-me mais calmo e tenho um sono melhor.”
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Para Rubens Maciel, a meditação pode ser entendida como uma prática de medicina complementar. Ele acredita que, assim como a medicina chinesa e a ayurvédica (milenar conhecimento médico indiano), que começaram a entrar no Brasil e no Ocidente há algumas décadas e hoje ganharam terreno e confiabilidade, as práticas meditativas caminham para a sua aceitação.
Além disso, considera importante o fato de a técnica ir de encontro ao sistema ancorado pela indústria farmacêutica, em que alguns desequilíbrios e disfunções (estresse, ansiedade, transtorno do déficit de atenção) levam à administração de inúmeros remédios. “É uma abordagem que interessa apenas ao sistema da indústria farmacêutica, com uma visão extremamente reduzida da pessoa”, conclui.