terça-feira, 12 de novembro de 2013

Excesso de iodo na gestação e lactação pode causar hipotireoidismo na prole

Por Karina Toledo
Resultados de experimentos feitos com ratas na USP mostram que consumo pela mãe de uma dose apenas cinco vezes maior que a recomendada é o suficiente para reprogramar a expressão dos genes nos filhote.
Agência FAPESP – Um experimento feito com ratas na Universidade de São Paulo (USP) mostrou que o consumo excessivo de iodo durante o período de gestação e lactação pode tornar a prole mais propensa a sofrer de hipotireoidismo na vida adulta.
O trabalho faz parte do projeto de pós-doutorado de Caroline Serrano do Nascimento, realizado com Bolsa da FAPESP e supervisão da professora Maria Tereza Nunes, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP).
“Os efeitos deletérios do excesso agudo e crônico de iodo no organismo já estão descritos na literatura. Agora, estamos observando que esse elemento desencadeia também mecanismos epigenéticos, ou seja, o consumo excessivo desse elemento pela mãe durante a gestação e lactação gera consequências no desenvolvimento fetal e, aparentemente, programa o organismo do filhote para ficar mais suscetível ao desenvolvimento de hipotireoidismo durante a vida adulta”, comentou Nascimento.
O iodo é um micronutriente essencial para o homem e demais mamíferos, pois é usado na síntese dos hormônios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). Além de regular o metabolismo, esses hormônios são importantes para o funcionamento adequado de praticamente todos os órgãos.
Já há muitas décadas se sabe que a deficiência desse mineral pode causar bócio, ou seja, um aumento no volume da glândula tireoide que prejudica seu funcionamento. Sabe-se também que a falta de iodo durante a gestação pode levar a danos cerebrais em crianças, uma vez que os hormônios tireoidianos desempenham um papel extremamente importante no desenvolvimento do sistema nervoso central. Por essa razão, no Brasil, tornou-se obrigatória na década de 1950 a adição de iodo no sal de cozinha.
Mas estudos recentes têm mostrado que o consumo superior à dose diária recomendada – cerca de 150 microgramas – também pode trazer prejuízos ao funcionamento da tireoide. Este ano, uma resolução da Anvisa reduziu a faixa de variação do iodo no sal de 20 a 60 miligramas por quilo – quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para populações que consomem até 10 gramas de sal por dia – para 15mg/kg a 45 mg/kg.
A medida foi tomada após pesquisas do Ministério da Saúde mostrarem que a população brasileira ingere uma taxa de iodo maior do que a recomendada pela OMS em razão do consumo elevado de sal.
Em seu mestrado e doutorado, Nascimento estudou o que acontece no organismo durante uma sobrecarga aguda de iodo. “Desde 1948 se sabe que o excesso agudo exerce um efeito inibitório no tireocito – a célula da tireoide que produz os hormônios tireodianos. É um efeito rápido e adaptativo, que tem como função proteger a célula daquela sobrecarga momentânea. O objetivo do meu mestrado e doutorado foi desvendar as bases moleculares por trás desse fenômeno”, contou.
Nascimento mostrou que o excesso de iodo diminui a expressão e atividade de uma proteína conhecida como NIS, que é responsável por transportar este oligoelemento essencial para a biossíntese de hormônios tireoidianos pelos tireocitos.
“Quando a NIS está menos expressa ou não está funcionado adequadamente, o tireocito capta menos iodo e produz menos hormônios. Mas, após o período de inibição ou terminada a sobrecarga, a célula volta a sintetizar e secretar hormônios normalmente”, disse.
Dados da literatura e também de outro estudo conduzido no ICB sob a coordenação de Nunes, no entanto, indicam que, quando o consumo excessivo de iodo se torna crônico, o tireocito perde a capacidade de se adaptar e de escapar do efeito inibitório.
“Quando tratamos ratos cronicamente com excesso de iodo, observamos diminuição na expressão de diversas proteínas relacionadas à síntese dos hormônios tireoidianos e aumento na expressão de proteínas relacionadas à inibição da função do tireocito. Além disso, ocorre um aumento na produção de citocinas inflamatórias, que podem desencadear um quadro de tireoidite”, contou a pesquisadora.
Segundo Nascimento, há estudos que relacionam o aumento na incidência de casos de tireoidites autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto, ao excesso de iodo na alimentação.
Reprogramação de genes
Conhecendo os efeitos da exposição crônica ao excesso de iodo e sabendo da importância dos hormônios tireoidianos na gravidez, Nascimento e Nunes decidiram então investigar os efeitos da sobrecarga durante este importante período do desenvolvimento. Buscaram avaliar se os prejuízos desencadeados pelo excesso de iodo na mãe poderiam ser transmitidos para seus filhos por meio de mecanismos epigenéticos.
No primeiro trimestre da gestação, explicou Nascimento, o feto é totalmente dependente dos hormônios tireoidianos produzidos pela mãe e qualquer alteração na síntese hormonal nessa fase pode causar consequências graves para o desenvolvimento fetal. Após o segundo trimestre, o bebê já tem sua própria tireoide desenvolvida, mas ainda depende do aporte de iodo da mãe, que é feito pela placenta.
“Como a placenta expressa a proteína NIS, queríamos descobrir se o excesso de iodo poderia prejudicar o transporte deste elemento para o feto. Além disso, durante a lactação, esse transporte também poderia ser comprometido pela sobrecarga de iodo, pois a mama também expressa NIS. Outro objetivo do estudo é investigar se o tratamento da mãe com excesso de iodo poderia alterar a expressão de genes na prole ou prejudicar seu desenvolvimento”, explicou Nascimento.
Desde o início da gestação até o fim da lactação, as ratas passaram a receber água contendo uma dose de iodo cinco vezes maior que a recomendada. No caso dos humanos, seria o equivalente a ingerir diariamente o iodo existente em 12 gramas de sal (antes da mudança determinada pela resolução da Anvisa). Já o grupo controle recebeu apenas a quantidade de iodo considerada ideal.
“Optamos por uma dose equivalente à que poderia ser obtida pela população brasileira, que sabidamente come uma quantidade muito grande de sal”, contou Nascimento.
Após o desmame, aos 21 dias de idade, as proles dos dois grupos passaram a receber ração e água com quantidades ideais de iodo. Aos 90 dias de idade, os pesquisadores constataram que os filhotes das ratas submetidas à sobrecarga do mineral haviam desenvolvido hipotireoidismo, enquanto os do grupo controle estavam com a tireoide saudável. As mães tratadas com excesso de iodo também apresentaram quadro de hipotireoidismo, como era esperado, já no fim do período de lactação.
“Vimos que a maioria dos genes ligados à biossíntese dos hormônios tireoidianos estava com a expressão diminuída tanto na mãe, quanto na prole adulta, no grupo exposto ao excesso de iodo durante a gestação e lactação”, contou Nascimento.
O próximo passo, segundo a pesquisadora, é descobrir em que momento da gestação ou da lactação esse excesso de iodo é mais prejudicial. “Uma vez que tivermos esclarecido bem os mecanismos que ocorrem na prole, poderemos voltar e descobrir em que fase do desenvolvimento o iodo altera a programação gênica dos animais. Aparentemente, em cada uma das fases há uma resposta diferente na programação da expressão de genes durante a vida adulta”, afirmou.
Apesar de conhecer bem as consequências da ingestão excessiva de iodo, Nascimento não defende a ideia de eliminar ou reduzir a adição do mineral ao sal. “Penso que o ideal seria investir em políticas públicas para reduzir o consumo de sal na população, pois dessa forma você evita não apenas prejuízos à tireoide como também doenças cardiovasculares. Com a atual redução, por outro lado, não se tem garantia de que as pessoas vão ingerir quantidades ideais de iodo se diminuírem o sal na alimentação”, avaliou.
De acordo com a pesquisadora, conhecer melhor a forma como a proteína NIS é regulada pelo iodo pode trazer perspectivas terapêuticas interessantes.
“A NIS é extremamente importante no diagnóstico e tratamento de câncer de tireoide com iodo radioativo. Muitos trabalhos tentam aumentar a expressão dessa proteína em tecidos cancerígenos, para que eles captem ainda mais o iodo radioativo e a terapia seja mais eficaz. Desta maneira, conhecer como essa proteína é regulada pode trazer perspectivas interessantes no desenvolvimento de terapias que visem tanto o tratamento do câncer de tireoide, como de outros tipos de câncer”, afirmou.

O que é melhor para a saúde: café ou vitamina de frutas?

Nem sempre a vitamina de frutas é a escolha saudável
Uma bebida é feita com frutas e a outra tem cafeína, portanto a tendência é todos pensarem que uma vitamina de frutas é mais saudável que um café. Mas, o médico e jornalista britânico Michael Mosley explica que pode não ser bem assim.
A resposta óbvia sobre qual bebida é mais saúdavel parece ser a vitamina de frutas. Afinal, beber café é um mal necessário e tomar uma vitamina de frutas faz parte da quantidade mínima de frutas e verduras que devemos consumir diariamente, cinco por dia.
Mas, vários estudos revelam algo mais surpreendente.
Começando com o café. Muitos estudos alegam que anos consumindo a bebida podem aumentar o risco de uma série de problemas, desde doenças cardíacas até câncer.
Estes estudos se baseiam em experiências nas quais se pega um grupo de pessoas que bebem café comparadas com outro grupo semelhante que não toma a bebida. O problema com esta abordagem é que os que tomam café são mais inclinados a outros hábitos como fumar ou consumir bebidas alcoólicas, então é difícil separar o que realmente está fazendo mal a estas pessoas.
Uma forma mais confiável de saber a verdade é pegar um grupo de indivíduos saudáveis, coletar dados a respeito deles e então seguir a situação deles por muitos anos.
Quando cientistas coletaram dados sobre os hábitos de consumo de café de 130 mil homens e mulheres e então os seguiu por 20 anos, descobriram que o café é algo bom. A pesquisa foi publicada na revista especializada Annals of Internal Medicine, em junho de 2008.
Ao analisar os números resultantes do estudo, os cientistas concluíram que o "consumo regular de café não estava associado ao aumento de mortalidade entre homens ou mulheres".
Proteção
Os dados deste estudo sugerem que o consumo moderado de café pode oferecer uma pequena proteção, levando a uma suave queda da mortalidade (por várias causas) em pessoas que consomem a bebida, em comparação com os que não bebem café.
Com base neste e outros estudos, se chegou à conclusão de que a dose mais eficaz varia entre duas a cinco xícaras por dia. Beber mais do que isso diminui os benefícios.
O café tem centenas de substâncias diferentes, incluindo muitos flavonoides (compostos encontrados em plantas e que têm efeito antioxidante). Mas não se sabe quais destes ingredientes é benéfico.
Mas, quando se se fala do cérebro, o ingrediente bom do café parece ser a cafeína. Uma pesquisa publicada em julho de 2013 na revista especializada World Journal of Biological Psychiatry, afirmou que pessoas que bebem duas a cinco xícaras de café com cafeína diariamente apresentam metade das probabilidades de cometeter suicídio em comparação às pessoas que bebem o café descafeinado ou menos que duas xícaras por dia.
Esta pesquisa juntou dados de três estudos que seguiram mais de 200 mil pessoas por mais de 14 anos, então é confiável. Além de ser apoiada por outras pesquisas.
Uma razão de a cafeína poder ser um antidepressivo suave é que, além de deixar a pessoa mais alerta, aumenta o nível de neurotransmissores como dopamina e serotonina, que melhoram o humor.
Mas os pesquisadores não recomendam doses altas, acrescentando que "há pouco benefício extra para o consumo acima de duas ou três xícaras".
Outro alerta é que estes testes começaram há muitos anos então o tipo de bebida testada foi, quase com certeza, o bom e velho café tradicional. Uma simples xícara de café tem entre zero e 60 calorias, dependendo se é preto, com leite ou com leite e um pouco de açúcar.
Capuccinos, lattes e mochas têm café mas também têm muitas calorias, algo entre 100 e 600 calorias.
E as vitaminas de frutas?
Vitaminas de frutas podem ser feitas com a fruta pura, mas quando você tira a casca e tritura a fibra você já perdeu muito do potencial da fruta. O que sobra em uma vitamina é principalmente uma bebida açucarada.
Em um estudo publicado no começo de 2013, pesquisadores descobriram que entre as 52 vitaminas prontas à venda, 41 tinham mais açúcar que uma Coca-Cola e todas tinham mais calorias.
Vitaminas de frutas são ácidas e deixam resíduos nos dentes, então os dentistas não gostam muito destas bebidas. Uma maçã por dia pode manter o médico longe, mas não quando é descascada, triturada, misturada e empacotada.
Em um estudo publicado em agosto de 2013 no British Medical Journal os pesquisadores descobriram que consumir frutas diminui o risco de diabetes. Mas "beber" frutas parece aumentar este risco.
Este foi outro grande estudo envolvendo muitas pessoas acompanhadas durante muitos anos.
Uma descoberta interessante é que frutas diferentes resultaram em níveis diferentes de benefícios. Três porções de mirtilo, por exemplo, diminuem o risco de diabetes em 26%; maçãs, peras, bananas e toranjas também tiveram um efeito positivo, mas muito menor.
No total, aqueles que comeram a fruta cortaram o risco de desenvolvimento de diabetes em 2% enquanto que as pessoas que "beberam" a fruta (mais de três copos de suco de frutas por semana) aumentaram o risco em 8%.
Más notícias
Um estudo feito na Austrália Ocidental examinou a dieta diária de mais de 2 mil pessoas e descobriu que consumir alguns tipos de frutas e verduras (brócolis, couve-flor, repolho e maçã) corta o risco de desenvolver câncer colorretal, enquanto que beber o suco de frutas foi associado ao aumento do risco de câncer retal.
Bebidas açucaradas aumentam o nível de insulina e níveis altos de insulina estão associados ao aumento do risco de certos tipos de câncer. Os pesquisadores destacam que muitas coisas que protegem contra câncer de intestino, como os antioxidantes e fibras, são perdidos ou suas quantidades caem durante o processo de fazer o suco.
Nenhum destes estudos analisou especificamente os benefícios para a saúde das vitaminas de frutas ou mesmo o impacto de tipos diferentes de sucos. Por exemplo, se são sucos frescos ou feitos a partir de concentrados de frutas, feitos em casa ou comprados em lojas. Presumo, por exemplo, que tomar uma vitamina feita em casa será bem melhor do que uma comprada pronta.
E duvido muito que o ocasional suco de fruta ou vitamina vai fazer mal. De qualquer forma, pessoalmente, não os compro mais e raramente os tenho em casa. Como a fruta e, quando se trata de bebidas, prefiro continuar com a água, chá e, claro, café.